Blogs

A Era do Palmeiras

A segunda metade da década passada marcou uma fase de reconstrução de alguns clubes no futebol brasileiro e o Palmeiras, com seis títulos grandes, é o representante mais bem sucedido dessa turma

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Desde o Boca, em 2001, nenhum time conseguiu defender o seu título até o Palmeiras

Desde o Boca, em 2001, nenhum time conseguiu defender o seu título até o Palmeiras

Vinte anos depois a Copa Libertadores tem um campeão que conseguiu defender o seu título. Muitos tentaram, mas coube ao Palmeiras de Abel Ferreira ser o primeiro bicampeão seguido do maior torneio de futebol das Américas desde o Boca Juniors de 2001, com a vitória por 2 a 1 sobre o Flamengo, na prorrogação disputada no Estádio Centenário, em Montevidéu. Essa conquista ratifica que a "era das reconstruções de clubes" é a Era do Palmeiras.

Desde o meio da década passada o futebol brasileiro viveu um período em que alguns clubes decidiram fazer diferente: parar de gastar o que não tinham, se reorganizar, buscar novas receitas e se preparar para o futuro. Alguns clubes continuaram gastando o que não tinham e hoje ralam para recuperar a competividade. O "fazer diferente" englobou clubes como Palmeiras, Flamengo, Grêmio, Athletico Paranaense (que há muito tempo já tinha essa postura), Ceará, Fortaleza e Bahia, todos, a seu modo, bem sucedidos neste período.

E o Palmeiras confirmou no último sábado que é o mais bem sucedido desse rol de clubes, conquistando seu sexto título "grande" nas últimas sete temporadas (e ainda tem o Mundial, que será em fevereiro de 2022, mas pertence à temporada 2021): duas Libertadores, dois Brasileiros e duas Copas do Brasil. Seis títulos assim em seis anos é um desempenho espetacular para um clube que não brigava por essas taças com consistência desde o fim dos Anos 90 (a conquista da Copa do Brasil de 2012 sucedida por um rebaixamento acabou ilustrando isso).

Essas seis taças, somando a elas o Campeonato Paulista de 2020, de importância reduzida pelo título em si, mas de um valor gigante para "batizar" uma geração formada em casa que se mostrou muito importante para as últimas conquistas, falam muito sobre a "Era do Palmeiras". Mas não só elas. Quando não venceu, o Palmeiras sempre esteve na briga (exceção feita à eliminação para o CRB na terceira fase Copa do Brasil deste ano). Vice-brasileiro em 2017, semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil em 2018, terceiro do Brasileiro em 2019, com os mesmos 74 pontos do vice Santos (maior pontuação de um vice na história).

Um ponto em comum de todos esses times é a competitividade. Praticamente em todos esses momentos, especialmente nos jogos grandes, sempre foi muito difícil superar o Palmeiras. E sob o comando de Abel Ferreira, esse cenário se potencializou de forma gigante. Como foi visto nesta Libertadores nos confrontos contra São Paulo, Atlético Mineiro e Flamengo, na decisão. A capacidade de virar a chave e esbanjar solidez, foco e compromisso ao plano que foi traçado levou o Palmeiras a esse bicampeonato seguido, terceira Libertadores no total, se igualando aos rivais São Paulo e Santos e ao Grêmio.

Com um elenco totalmente homegêneo, que não é o mais técnico ou habilidoso do Brasil, mas é o que sente menos a distância do titular para o reserva (com as exceções ao precisar substituir Weverton e Gustavo Gómez, o que é natural para qualquer time...), o Palmeiras é um camaleão com Abel Ferreira. Eliminou o São Paulo com uma proposta, tirou o Galo com outra e venceu o Flamengo com uma terceira.

Mérito do técnico português que utilizou de forma brilhante o período entre uma fase e outra da Libertadores. Os dois meses para a decisão viraram ouro na mão dele. Preparou Mayke para atacar uma fragilidade do Fla. Jogou o tempo todo com suas peças posicionadas para ganhar a segunda bola e tirar ritmo do adversário. Isso não teve resposta do outro lado. O erro gigante de Andreas Pereira vai marcar para sempre essa final, mas ela foi muito mais do que isso pelo lado alviverde.

De certa forma, o futebol brasileiro começa a viver uma nova fase, com a aprovação da "lei do clube-empresa", que deve oferecer muitos investidores a clubes que hoje têm problemas. Pode vir uma nova era por aí. Mas a era das reconstruções de alguns foi, definitivamente, é verde.

Comentários