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A legião estrangeira francesa é campeã

São 21 jogadores que ou nasceram ou têm pais ou avós ou berços em outros países da África, Caribe, Ásia ou Europa. Desde os anos 1980, a França inspira por importar o mundo para o país que vai dominando o mundo da bola.

Por Mauro Beting

Desde o sorteio se imaginava a França decidindo mais uma Copa. Mesmo sofrendo o que pariu contra a Inglaterra - que foi melhor que a bicampeã. Mesmo perdendo o melhor do mundo na temporada (Benzema), a meiuca campeã em 2018 (Kanté e Pogba), o primeiro reserva de ataque (Nkunku), o titular da zaga Kimpembe, mais dois reservas, e a bobagem de Deschamps de não convocar mais um nome - antes de perder no primeiro jogo o titular da lateral Lucas Hernández.

O irmão Theo assumiu a bronca ainda melhor. Tchouaméni foi o monstro que já se esperava. Até Rabiot foi bem. Giroud reencontrou o gol em Mundiais para ser o artilheiro histórico francês - até Mbappé o atropelar daqui a pouco. Griezmann religou o modo Copa. Lloris se mantém como o melhor goleiro francês de todos. Upamecano é o cara na zaga. Dembélé mais acende do que apaga, embora tenha estado em apagão na gigantesca decisão vencida pelos argentinos. Varane quase voltou a ser o do Madrid. A França voltou a ser a de 2018. E chegou à segunda final seguida que as Copas só viram com sucesso bisado pelos italianos, em 1934-38, e os brasileiros, em 1958-62.

Messi da Argentina (mais que a Argentina de Messi) foi o obstáculo final gigantesco para impedir que a França superasse a própria Argentina de 1990, vice depois de campeã em 1986. Quando perdeu na Itália para a Alemanha que havia sido vice nas duas Copas anteriores. Proeza de três finais seguidas que só o Brasil repetiu, entre 1994 e 2002. Mas com dois canecos erguidos.

O tabu mundialista de 60 anos que a França quase bateu ao perder a disputa de pênaltis na melhor final de todas diz muito do que eles fazem desde os anos 1980. Não apenas pelo trabalho de lapidação da escola de Clairefontaine, que desde 1988 potencializa talentos, de Henry a Pogba e Mbappé. Um dos motivos pentacampeões do país de Pelé desde sempre é a raça no sentido mais amplo e profundo. A riqueza étnica de várias peles para vestir uma única pele verde-amarela. No exemplo francês, desde os anos 1980 (com grandes seleções semifinalistas nas copas), a França é multiétnica em campo - contra a vontade dos Le Pens que dão mais asco do que pena. O racismo institucional que não quer ver nem pintado de azul, vermelho e branco um elenco tão preto. E não apenas rico pela bola que infla desde a África, Caribe, Ásia e Europa.

A França em 2022 é filha dos Camarões de Mbappé (também de ascendência argelina), Tchouaméni e Saliba (de pai libanês); da Alemanha e Portugal dos ascendentes de Griezmann; da Itália da família de Giroud; das origens de Dembélé que são da Argélia, da Mauritânia, de Senegal e de Mali (também de Konaté e Fofana); de Guiné-Bissau do berço de Upamecano; da Espanha de Theo e Lucas Hernández; do Benin de Koundé; do Marrocos de Guendouzi: das Filipinas de Areola; da Martinica de Varane; do Congo de Muani, Mandanda, Disasi (também angolano) e Camavinga (nascido em um campo de refugiados em Angola); de Guadalupe de Coman e do pai de Thuram (que foi campeão mundial em 1998, teve o filho enquanto jogava no Parma, na Itália, e desde sempre se posiciona contra o racismo que sofre na pele).

São 17 países distintos de ascendência, berço e maternidade para 21 dos atletas. Uma legião estrangeira e francesa a favor da França. E do mundo. Não apenas do futebol.

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