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Agora vão parar de brincar ao combater o racismo?

Triste noite no Parque dos Príncipes é marco no combate ao racismo no futebol e uma oportunidade para as entidades que comandam o jogo punirem atos racistas de verdade e não com “perfumaria”

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Demba Ba teve um papel histórico na luta contra a discriminação

Demba Ba teve um papel histórico na luta contra a discriminação

O combate ao racismo no futebol é algo que existe há mais de uma década. Ações, slogans, emblemas, faixas e camisas estão presentes nos estádios e nos sites de entidades como Fifa, Uefa, Conmebol e outras há muito tempo. Mas na prática, muito pouco se fez para punir de verdade práticas de discriminação racial no meio do futebol. É como se fosse um mundo de faz de conta em que quem manda brinca de combater o racismo para poder dizer que faz algo quando acontecer.

Isso é percebido ao verificarmos as punições aplicadas por casos envolvendo racismo. Multas ridículas, de valores irrisórios, fechamento de setores de estádios, jogos com portões fechados. Tudo perfumaria, punição de faz de conta, que não serve para punir, muito menos para educar. Se observarmos bem, a maior punição por um caso de discriminação racial no futebol vem do Brasil, com o Grêmio perdendo pontos no jogo e consequentemente sendo eliminado da Copa do Brasil de 2014 após os casos de injúria racial contra o goleiro Aranha, do Santos. Punições de verdade vindas da Fifa, da Uefa ou da Conmebol estamos esperando até hoje...

Mas os fatos ocorridos no Parque dos Príncipes neste 8 de dezembro de 2020 vieram para, tomara, mudar essa triste história. Um caso de racismo vindo de um oficial do jogo, o quarto-árbitro, um representante da Uefa, contra o assistente técnico do Instanbul Basaksehir, Pierre Webo, é algo para subir o sarrafo no combate ao racismo. Ali não era um jogador do time A ou B sendo racista, não era um ou vários torcedores sendo racistas. Era um representante da arbitragem, de forma natural (a reação dele logo após o tumulto se formar indica isso), tendo uma prática racista. Gravíssimo.

Da mesma forma, a reação dos jogadores à injúria racial é igualmente histórica e, tomara, vai provocar uma mudança no patamar de combate ao racismo. A indignação dos componentes do time turco, protagonizada pelo atacante Demba Ba arguindo ao quarto árbitro o motivo de utilizar a cor da pele para identificar Webo, foi seguida por uma reação muito justa e humana dos jogadores do PSG (com destaque para Neymar e Mbappe), que resultou no adiamento da partida. Nos últimos três ou quatro anos sempre faltou uma repercussão assim: deixar claro que a partida de futebol não vale nada diante de uma violência desse tamanho. Histórico. Épico.

Tenho convicção de que o racismo no futebol não vai terminar a partir de hoje, dia 9 de dezembro de 2020. Infelizmente. Mas essa triste noite no Parque dos Príncipes servirá como um marco no combate ao racismo. Por um aspecto muito simples: se no próximo caso, em qualquer lugar do mundo, não houver uma reação assim, com o jogo sendo suspenso, e uma punição de verdade, como suspensão ou exclusão de clube, jogador ou qualquer componente ligado ao jogo, além de multas milionárias, ficará claro que o racismo venceu.

O jogo PSG x Instanbul Basaksehir será terminado nesta quarta-feira. Do ponto de vista de importância para o combate ao racismo no futebol (e servindo para a vida) ele será eterno. Para o bem ou para o mal. Espero que para o bem.

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