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Antes de Jesus, depois de Jesus

Flamengo de Jorge Jesus de 2019 (de fato) acima de tudo; Jorge Jesus acima de todos, na modéstia do treinador.

Por Mauro Beting

Jorge Jesus

Jorge Jesus

"Os jogadores brasileiros não conheciam tão bem o jogo sem bola. Sem vaidade, isso começou a mudar depois da nossa passagem pelo Brasil".

Não foi Béla Guttmann, essencial na história do Benfica, do São Paulo e do Brasil campeão mundial em 1958 (pelo que ensinou a Vicente Feola no Tricolor paulista  campeão estadual de 1957) o autor da frase.

Foi Jorge Jesus. Treinador do melhor time que vi no Brasil e na América neste século: o Flamengo campeão da Libertadores e do Brasileirão de 2019.

Um timaço que não deixou legado nem para o próprio Flamengo, que mesmo mantendo oito titulares daquele esquadrão, só agora, no segundo semestre de 2021, voltou a atuar como aquele. Ou melhor: ganhar como aquele. E ainda assim sem a mesma eficiência e brilhantismo.

Para aproveitar outra fala das poucas aproveitáveis do treinador com sérias dificuldades para se comunicar (ainda que isso não atrapalhe a grande carreira que tem, e outros grandes treinadores também foram assim em entrevistas), me apego ao inefável "cincum".

CINCUM?

Sim. Cinco canecos brasileiros.

1958 - quando o Brasil estabilizou o 4-2-4.

1962 - quando o Brasil de Aymoré e Zagallo popularizou o 4-3-3.

1970 - quando Zagallo armou o melhor time de todos os tempos em um 4-3-3 mutável para um dinâmico 4-2-3-1 (de notável compactação SEM A BOLA).

1994 - quando o Brasil até exagerava de como jogava sem bola.

2002 - quando o 3-4-2-1 de Felipão foi 100% em sete jogos na Ásia. Como havia sido o Brasil de 1970 em seis partidas no México.

Jorge Jesus é daqueles (e não são poucos) que acham que o mundo é outro a partir da chegada dele.

AC. DC. AJ. DJ.

Para não dizer que Cristo, de fato, pela cabeça dele, foi inspirado no treinador do Flamengo de 2019. E não o contrário.

"Sem vaidade".

JJ estava em um ambiente controlado quando blaterou. Não depois de uma suada classficação contra um time melhor do que o dele, como Abel também exagerou ao se defender das críticas exacerbadas que recebe, quando eliminou o Galo no Mineirão.

Quando ele, digno campeão da América em 2020 e também da Copa do Brasil, com razão e emoção defendeu a escola portuguesa de treinadores, e um monstro como CR7. Mas fazendo algo que muito se faz por estes tempos em vários campos: para se defender atacou - o atleta brasileiro, a escola brasileira, os colegas brasileiros, os dirigentes brasileiros, a imprensa brasileira, as redes antissociais brasileiras. Exagerando, extrapolando e generalizando como se fosse Jorge Jesus. Como tantos ataques gratuitos e imerecidos que Abel sofreu.

O treinador palmeirense se defendeu atacando - algo que seu time esqueceu como fazer. E, claro, se perdeu mais do que os jogos que tem empatado.

Deploro xenofobia. Qualquer uma. Do meu país para outro, ainda mais. Mas de quem vem para cá para extrapolar nas críticas e nos autoelogios, tanto quanto.

A reação aos exageros de Abel foi mais violenta e virulenta que algumas críticas pesadas e despropositadas dos não poucos detratores dele ou do clube que ele dirige. Como Jorge Jesus também já está expiando contas que não são dele. Como miçangas e contas de Cabral.

É algo tão despropositado como os confetes que JJ se atirou na análise rasa, prepotente e ignorante a respeito do legado dele ao futebol pentacampeão mundial.

O que não significa que o Brasil de bola não tenha muito ainda a aprender.

E reaprender.

Mas não será com esse tipo de aula de jactância de JJ.

Eu adoraria que mais times jogassem como o Flamengo de 2019. Mas não precisamos de profissionais que se acham mais importantes do que Bruno Henrique, Gabi, Arrascaeta, Everton Ribeiro, Gerson, Filipe Luís, Rafinha, Diego Alves e ótima companhia naquele time histórico.

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