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Oi, Bruninho, o amor não precisa se desculpar

Quando um garoto de 9 anos é atacado por amar um clube e respeitar as pessoas e os adversários

Por Mauro Beting

Respeito

Respeito

Oi, Bruninho, tudo bem?

Desculpa pelo nosso mundo que há 9 anos é melhor por ter você nascido sendo essa pessoa que você mostrou ser. Bem criado e educado pelos seus pais. Bem amado. E respeitando muito bem o amor dos outros. E até o ódio dos que são dos seus próprios gostos e desgostos.

Parabéns pelos seus atos e por sua coragem de ser realmente uma pessoa de bem. Não os que atacam quem pensa diferente. Quem age diferente. Quem gosta de outras cores, credos e clubes.

Desculpa pelas pessoas que se ofenderam com seu ato de respeito e amizade que vai muito além das quatro linhas. Mas que aqueles sem linha e sem respeito e sem amor se ofendem por tudo.

Bruninho, você pegou a camisa do Jailson que você gosta como goleiro e como pessoa. E ele é mesmo uma pessoa adorável. Ele mesmo que foi muitas vezes vítima da própria torcida do meu time. Só pelo clube do coração da mãe dele e da irmã dele ser o maior rival do nosso Palmeiras.

Você disse que gosta muito do Jailson e também do Weverton que é goleiro da Seleção. E é outro cara tão legal quanto o Jailson. Outro que cata muito. Outro cara raro: tão bomo como gente como é como goleiro.

Bruninho, eu peço desculpa pra você em nome das pessoas mais velhas. 

E vou contar umas historinhas pra você: toda a minha família é Palmeiras. E quase toda ela ia para Santos. Foi lá na bela cidade do seu belo Santos FC que a cegonha me trouxe. Não sei se você sabe a história da cegonha. Mas como você tem apenas 9 anos, mais tarde eu conto direitinho. Se bem que não é preciso entrar em detalhes a respeito de minha concepção...

Enfim, meu pais me fizeram em Santos.

Meu pai também trabalhou em Santos.

Em Santos tem um Museu do Pelé. Eu sou um dos curadores do Museu.

Foi lá na Vila que o meu pai foi homenageado com esta placa, em 2012. Dois dias depois do meu pai morrer, o Santos FC deu essa placa a ele. Minha mulher foi ao estádio pela primeira vez. O nosso Palmeiras entrou em campo com a camisa com o nome do meu pai nas costas, e frase famosa dele no peito. Todo o time com uma faixa homenageando o meu pai.

Quem me deu essa placa lá no meio do campo foi o Neymar. 

Quando eu estava saindo do gramado, aplaudido por muitos torcedores do Santos (não eu, mas o meu pai estava sendo homenageado), um deles desceu correndo e começou a me xingar. O pessoal em volta deu bronca nele. E ele começou a me xingar ainda mais. A mim e ao meu pai.

Só por sermos palmeirenses.

Eu ri. É o que dá para fazer para entender o que não tem como entender.

Mas essas minhas historinhas estão aqui só pra também explicar o respeito que tenho pelo seu clube (que também seria o meu se não existisse a razão e a emoção da minha vida que é o Palmeiras).

Só pra também lembrar que a primeira vez que eu vi o Pelé e o Santos eu só tinha 7 anos.

E eu não vi, de verdade. Toda vez que o Pelé pegava na bola no Morumbi eu fechava os olhos. Eu não vi ele fazer o gol do empate do seu Santos contra o meu Palmeiras, lá em 1973.

Num jogo em que estava o meu primeiro ídolo goleiro - o Leão, goleiro do meu time e na nossa Seleção. E do outro lado estava outro goleiro tão bom - o Cejas, goleiro do seu Santos, e da Seleção da Argentina, nossa maior rival.

Se eu pudesse eu pediria a camisa dos dois goleiros. Eu era goleiro com a sua idade.

Eu não sou santista. Eu sou palmeirense.

O contrário de você. Mas ao mesmo tempo igualzinho a você.

Eu também iria se pudesse a todos os jogos do meu time no nosso estádio. Como você disse que foi em 2019. E não pôde ir mais nesse tempo dessa doença que matou muita gente.

Vírus que ainda contamina. E mata como a intolerância e ignorância de que você é vítima agora.

Eu sei que sempre você apoiou o Santos. E sei que vai apoiar sempre o Santos do seu coração. E da sua alma e cabeça também privilegiada.

De coração, eu quero que todos os torcedores e todas as pessoas apoiem e vistam a camisa do Bruninho. A do respeito.

Eu agora vou dar todas as camisas que puder para você, amiguinho.

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