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Opinião: O 'projeto CR7' na Juventus foi um fracasso e é hora de encerrá-lo

A culpa pelo naufrágio da operação, no entanto, cai muito mais sobre os ombros da Juventus do que sobre o português

Por Gabriel Menezes

Ciclo de Cristiano Ronaldo na Juventus pode estar terminando(Getty Images)

Ciclo de Cristiano Ronaldo na Juventus pode estar terminando | Getty Images

Em 2018, a Juventus acertou uma das maiores contratações da história do futebol mundial. Desembolsando 100 milhões de euros (R$ 447 milhões, à época), o clube italiano acertou com Cristiano Ronaldo, então tricampeão da Champions League. A missão era clara: conquistar a Orelhuda depois de 22 anos - o último título foi em 1995/96.

Quase três anos depois do acerto, a imprensa europeia noticia repetidamente que o astro português pode estar próximo de deixar a Velha Senhora. O "projeto CR7", que parecia ser um passo importante para tornar o time italiano um dos melhores da Europa, falhou.

Desde que Cristiano chegou a Turim, foram três participações em Champions, com eliminações precoces e para times considerados inferiores: em 2018/19, queda nas quartas para o Ajax; em 2019/20, eliminação nas oitavas para o Lyon. Em 2020/21, nova eliminação nas oitavas, para o Porto.

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A Juventus foi campeã italiana em 2018/19 e 2019/20 e também venceu a Supercopa da Itália em 2020 (foi vice em 2019, para o Napoli). Mas esses títulos são "pouco". Afinal, antes de Cristiano, a Juventus já havia vencido sete títulos italianos consecutivos. Na teoria, não precisaria do português para seguir dominando a Itália. A chegada do astro, repito, buscava fazer com que o clube alçasse voos maiores.

Os títulos domésticos são "pouco" para um clube que resolveu partir para o "tudo ou nada" com a chegada de CR7, dono de um salário exorbitante - 31 milhões de euros anuais, segundo a 'Gazzetta dello Sport'. De Ligt, que tem o segundo maior contra-cheque do clube, ganha 8 milhões de euros por ano.

 
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Mas por que deu errado? 1º ponto: as escolhas de técnicos da Juventus

Há várias razões pelas quais a Juventus não conseguiu vencer uma Champions League, seu objetivo maior, com Cristiano Ronaldo. Um deles é, claro, a própria essência do futebol: o esporte convive com as zebras. Não é raro vermos times de menor investimento eliminando gigantes como a Juve. 

Por outro lado, quando se analisa as contratações de jogadores e as escolhas de técnicos, a impressão é que faltou planejamento da Juventus. Com Cristiano Ronaldo, a mentalidade do clube deveria ser a de "vencer agora", já que o português já tinha 33 anos no momento de sua contratação. 

No entanto, parece que a Juventus não adotou essa mentalidade na hora de compor o elenco ao redor de sua principal estrela e nem na hora de escolher treinadores. Vamos aos técnicos: em sua primeira temporada, Cristiano ainda foi comandado por Massimiliano Allegri, que resolveu deixar o clube no meio de 2019. Em seu lugar, assumiu Maurizio Sarri, um treinador bem visto na Itália, mas que só tinha experiência em dois grandes times anteriormente: Napoli e Chelsea - por quem havia conquistado seu único título na carreira, uma Europa League.

Sarri foi campeão italiano, mas acabou demitido mesmo assim (Foto: Getty Images)

Para 2020/21, após a demissão de Sarri - mesmo com o título da Serie A - a escolha foi zero imediatista e claramente tinha foco no longo prazo - algo que Cristiano Ronaldo já não tinha a oferecer. Andrea Pirlo, técnico sem nenhuma experiência (e que havia sido contratado para treinar o time sub-23), foi escolhido para comandar a equipe. Era inviável imaginar que o ex-meia fosse conseguir ter um sucesso estrondoso logo de cara.

"O Bayern apostou num técnico sem tanta experiência e acertou em cheio com Hansi Flick", alguns podem dizer. Sim, mas os cenários são totalmente diferentes: Flick é mais velho (56 anos contra 41 de Pirlo), já havia sido treinador do Hoffenheim entre 2000 e 2005 e foi auxiliar de Joachim Löw na seleção alemã por quase dez anos, além de ter sido auxiliar de Niko Kovac no Bayern. Foi uma aposta? Claro, mas Flick estava mais "pronto" para assumir um gigante do que Pirlo, que parecia alguém contratado para uma "reconstrução" do clube, em contraste com a necessidade de vencer imediatamente a Champions por Cristiano Ronaldo.

Pirlo chegou, não empolgou nem um pouco e a Juventus corre sério risco de ficar de fora da próxima Champions League, o que poderia selar de vez a ruptura entre Cristiano e Juve. Entrando nas últimas cinco rodadas com 66 pontos, a Velha Senhora está na 4ª posição, empatada com Napoli e Milan. A Lazio (61 pontos) ainda sonha com uma vaga na principal competição europeia também.

Gênio em campo, Pirlo ainda não tinha nenhuma experiência trabalhando como técnico (Foto: Getty Images)

Por que deu errado? 2º Ponto: formação do elenco teve erros e falta de 'projeto' consistente

Cristiano Ronaldo chegou à Juventus em 2018/19. Desde então, o clube italiano gastou 529 milhões de euros em contratações - excluindo a do português - segundo o site 'Transfermarkt'. Na temporada em que CR7 chegou, ele veio acompanhado de Douglas Costa (contratado em definitivo junto ao Bayern depois de uma temporada emprestado à Juve), Bonucci, João Cancelo, Mattia Perin, Emre Can e Martín Cáceres.

Bonucci foi repatriado após uma péssima temporada no Milan, de onde saiu pela porta dos fundos. Douglas Costa, como sabemos, sofreu com lesões em seu tempo na Juventus. Cancelo poderia ter sido a melhor dessas contratações, mas só durou uma temporada (foi envolvido em negociação com o Man. City por Danilo no ano seguinte). Emre Can não se adaptou ao clube e saiu na temporada seguinte. Perin - um dos muitos "sucessores de Buffon" - e Cáceres só compuseram elenco.

Em 2019/20, a Juve fez três contratações de veteranos a custo zero: Buffon, Rabiot e Ramsey. Buffon virou reserva de Szczesny, Rabiot nunca se firmou - e já vinha em baixa no PSG - e Ramsey, sofrendo com lesões, também não vivia sua melhor fase. O clube gastou 101 milhões de euros em Kulusevski (que só chegou à Juve em 2020/21), Cristian Romero (emprestado a Genoa e Atalanta, nunca estreou), Luca Pellegrini (emprestado a Cagliari e Genoa, nunca estreou) e Merih Demiral. Esse último foi o único dos quatro que conseguiu ser peça importante do elenco. O valor total é maior do que o gasto em De Ligt (87,5 milhões de euros), esse sim contratado para ser titular absoluto. O jovem (tinha 19 anos à época) demorou a se firmar, mas vem se tornando um pilar da Juventus e deve fazer parte da espinha dorsal da equipe de Turim por muitos anos. Danilo foi outra contratação (recebido em troca de Cancelo) da temporada.

De Ligt deve ser um dos pilares da Juventus pelos próximos anos (Foto: Getty Images)

Em 2020/21, percebemos o começo de um processo de reconstrução do plantel da Juventus. Jogadores experientes como Khedira, Matuidi e Higuaín saíram do clube. Douglas Costa e De Sciglio foram emprestados. Enquanto isso, as contratações foram de jovens, em sua maioria: chegaram Arthur (24 anos), Rovella (18 anos, emprestado ao Genoa até o fim da temporada), Chiesa (23 anos) e McKennie (22 anos). Morata completou a lista.

Depois de traçar todo o histórico, podemos concluir: a Juventus contratou Cristiano Ronaldo, mas se esqueceu de dar peças já consolidadas e com qualidade para vencer uma Champions a ele. No Real Madrid, os "coadjuvantes" também eram estrelas, como Benzema, Marcelo, Modric, Kroos. A Juventus não deu isso a Cristiano. As contratações não são ruins, mas eram insuficientes para o contexto do clube e a mentalidade de "vencer agora". Foram muitos jogadores promissores contratados pensando no longo prazo e poucos de quem se poderia exigir grandes atuações na maior competição de clubes do mundo.

 

Mas nada deu certo? Qual foi o retorno do "projeto CR7" na Juventus? E daqui pra frente, é melhor continuar ou clube e astro deveriam se separar?

Claro que algum retorno a Juventus teve, principalmente extracampo. Se falou de Juventus como poucas vezes antes e o retorno de marketing, claro, foi estrondoso. A marca Juventus se expandiu enormemente e Cristiano Ronaldo foi fundamental nesse sentido.

Em campo, porém, o resultado não foi o mesmo. O conceito de "fracasso" da Juventus nesses anos com Cristiano Ronaldo seria, para muitos clubes, uma glória enorme. Afinal, vencer dois títulos de Campeonato Italiano e Supercopa da Itália não é pouco. Mas, pensando especificamente no contexto da Velha Senhora, foi pouco. Como dito no início: a contratação de CR7 tinha um objetivo claro, que era levar a Champions League para Turim. E os bianconeri não chegaram nem perto disso.

É por isso que, particularmente, considero o projeto um fracasso. Culpa de Cristiano Ronaldo? Não acho. O português não foi artilheiro do Campeonato Italiano em nenhuma das duas temporadas passadas, mas se encaminha para ser nessa e teve boas atuações. Sinto que, à diretoria da Juventus, faltou "foco" e um projeto mais claro em relação ao que o clube queria.

Em 2020/21, creio que já houve uma mudança clara de mentalidade e o objetivo de Pirlo (caso seja mantido no cargo) será rejuvenescer o elenco e "reconstruir" a Juventus, que tem estrelas envelhecidas (Buffon, Bonucci, Chiellini, Cuadrado), e várias promessas que podem ganhar mais espaço. Por isso, vejo a saída de Cristiano Ronaldo como o melhor para ele - que pode se encontrar em um clube que lhe dê a chance de ganhar a Champions ou pode preparar uma aposentadoria de ídolo no Manchester United - e para o clube, que não terá mais o salário surreal do português e poderá concentrar esforços em preparar seus próximos anos.

 
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