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SURREAL! Real Madrid 3 x 1 Manchester City

Não adianta: os 90 minutos são mesmo mais longos no Santiago Bernabéu.

Bastam 89 segundos além dos 90 minutos.

Por Mauro Beting

Rodrygo

Rodrygo

Copa da Uefa 1985-86: havia 20 anos que o então hexacampeão Real Madrid não ganhava uma Champions. E nem o torneio então disputava. Era a semifinal do torneio em Milão. Derrota por 3 a 1 para a Internazionale. Ainda no gramado, o atacante Juanito disse aos adversários para terem moderação nas celebrações. Tinha o jogo de volta em Madri. "Noventa minutos são longos demais no Santiago Bernabéu". E foram mesmo. Placar devolvido em 90 minutos "longos demais". Na prorrogação, conta fechada: 5 a 1 Real Madrid. Na decisão, vitória contra o Koln, mais um título da Copa da Uefa para o Madrid.

A frase pegou. E a imagem atemporal da bandeira Juanito é quase sempre desfraldada no final de todos os tempos. Como foram os 15 minutos letais contra o PSG no show de Benzema. Como foram os últimos 15 contra o Chelsea que dariam em vitória na prorrogação contra o atual campeão europeu.

Como foram 1m29s letais como um raio de Rodrygo na virada transcendental contra o Pep do City. O Guardiola que mais uma vez fica pelo caminho. Desta vez, jogando melhor em quase todos os 180 minutos. 

Mas eles são mesmo mais longos para o dono da casa e da festa. Bastam 89 segundos que determinaram os 210 da semifinal histórica.

Dos maiores duelos da história do torneio.

Não deve ser fácil torcer contra o Real Madrid em noite europeia. Não é apenas isso que explica mais uma remontada histórica. Mais uma final madridista. Mas é muito isso que tanto explica como a virada derreteu o City na prorrogação. Quando levou o gol de pênalti de Benzema e praticamente mais nada conseguiu contra quem praticamente tudo conquista na Espanha, na Europa e no planeta. 

Eu quero que Guardiola dirija todos os times do mundo por todos os tempos. Mas eu adoraria que no meu time, nos meus empregos e na minha casa tivesse um comandante como Ancelotti. Com a gestão mais humana e tranquila do grupo, e com a capacidade de se reiventar a cada trabalho.

Ninguém é mero perdedor em um confronto como esse. São dois grandes vencedores nos bancos.

Mas, no campo, um dirige o Real Madrid.

Basta.

Ou bastam 1min29s a partir dos 44min21 finais.

O jogo realmente dura um pouco mais do que 90 minutos.

É eterno. É Real.

PRIMEIRO TEMPO

Benzema subiu sozinho aos 3 minutos para cabecear por sobre a meta de Ederson. Talvez ele não tenha tido uma chance tão clara nos últimos tempos brilhantes. A bola não entrou. Fosse o espetacular 4 a 3 de Manchester, provável que fosse gol. Ainda mais com Benzema em dias de melhor do mundo.

O jogo começou mais Libertadores que Champions. Antes de 10 minutos já tinha amarelos por tretas e milongas. Casemiro escapou de receber cartão por tesoura por trás. O Madrid que precisava de gol tinha mais a bola. Teve outra finalização de Benzema por cima. Muito espaço para o centroavante. E cera do Ederson desde 10 minutos.

Ancelotti optou por Valverde vindo pela direita para articular com Benzema e Vini, liberando um pouco mais Modric pela esquerda, e atrás do Benzevini. Um 4-3-1-2, com Kross mais preso pela esquerda. O 4-3-3 de Pep alternava a marcação mais à frente com o bloco médio defensivo mais precavido. Mas saindo um pouco mais para o jogo. Tiros de longe eram a saída inglesa, que tinha Gabriel Jesus no comando do ataque, Mahrez e Foden pelos lados, De  Bruyne e Bernardo Silva organizando à frente de um Rodri cada vez mais eficiente.

De tanto querer atacar, o City dava espaços para o letal contragolpe madridista. Foi assim que Vini mandou uma bomba por cima, aos 17. A resposta foi o craque belga achar o português, aos 19. Courtois salvou a bomba de Bernardo Silva. Gabriel quase abriu o placar, numa sobra de bola, aos 22.

Na metade da primeira etapa, o City já tinha 58% da bola e a classificação com cheiro de garantida contra qualquer equipe. O problema é que do outro lado era o Madrid trideca em noite europeia no Bernabéu.

Não é só o futebol que nada garante. É o Madrid que é Real perigo. No final das contas de um primeiro tempo equilibrado, e de um estádio mais quieto do que o esperado, três chances para cada lado. E um empate sem gols justo. E dava para dizer até decepcionante por tudo que rolou na ida.

SEGUNDO TEMPO

Jogadaça brilhante na saída de jogo fez com que Vini jr perdesse gol feito com menos de 15 segundos. Mas deu a letra para que o Madrid fizesse os seus números. Aos 4, Gabriel quase guardou o dele, em belo lance pela esquerda. Mas, a partir daí, o jogo foi pela esquerda, com Vini, que foi ganhando todas de Walker. Mas pecando na finalização.

Nunca no confronto esteve tão vivo o time merengue. Mas o City, como já havia feito contra o Atlético de Simeone, soube esfriar a pressão. Jogou com o regulamento e o empate nas chuteiras. Só aos 23 Ancelotti fez o óbvio: Rodrygo pelo discreto Kross. 

Pep sacou Walker e veio com Zinchekno na lateral esquerda, passando Cancelo para a direita, aos 26. Gundogan veio junto para o lugar de De Bruyne. Um minuto depois, com a bola passando pelos dois, Bernardo Silva recebeu livre para avançar e achar Mahrez para bater seco, de primeira, no contrapé de Courtois.

Acabou.

Era o que se sentia em qualquer lugar do mundo.

Menos no estádio onde mais se conquistou o mundo.

Ancelotti veio com Asensio por Casemiro, Camavinga por Modric. Desespero. E mais nada estava dando certo. E poderia ter sido pior, não fosse Courtois, que fez duas grandes defesas, e mais outro lance perdido por Grealish (que entrou muito bem).

Estava tudo dominado. Mas Camavinga achou Benzema na esquerda, que tocou para Rodrygo empatar, aos 44min21s.

O jogo reabriu. Vini fez das dele, mas estava sozinho.

89 segundos depois, Carvajal cruzou para Rodrygo marcar de cabeça como se fosse Benzema.

2 a 1 Madrid. 

E Rodrygo quase fez outro não fosse Ederson.

E o Manchester City fez quase tudo certo. Não fosse o Madrid.

PRORROGAÇÃO

Com 1 minuto, Benzema quase fez.

Com 2 minutos, pênalti no Benzema do Ruben Diaz.

O City tomou o gol antes mesmo de Benzema marcar com imensa categoria na penalidade realmente máxima para Pep que talvez não devesse ter tirado antes De Bruyne.

Mas o que mais se pode cobrar dele e do time que jogou muito bem os 180 minutos?

Os azuis entraram derrotados pros 30 minutos finais pelos dois gols sofridos em 89 segundos fatais em Madrid.

Até o final do tempo extra, Fernandinho quase fez o dele. 

Mas o Manchester City já estava perdido. Ou melhor: o Real Madrid continuava ganhando. E contando.

Como até o final dos tempos quem viu vai contar que viu mais uma vez o Madrid ser irreal.

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