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Setembro Amarelo: a importância da saúde mental entre os jogadores de futebol

Em entrevista exclusiva à TNT Sports, Nilmar e Aranha, ex-jogadores de futebol, compartilharam suas experiências a respeito do tema

Setembro é conhecido como o mês dedicado à conscientização para os cuidados da saúde mental(Getty Images)

Setembro é conhecido como o mês dedicado à conscientização para os cuidados da saúde mental | Getty Images

Desde 2015, setembro é simbolicamente “amarelo” como forma de conscientizar a respeito das questões da saúde mental. O 10º dia deste mês é reconhecido como o “Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio”, mas o debate se estende durante os 30 dias e, claro, por todo o ano.

Segundo dados do site oficial da campanha “Setembro Amarelo”, organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), são registrados mais de 13 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Esses transtornos mentais, tão presentes na sociedade, certamente estão presentes também no mundo do futebol, que nada mais é do que um espelho da nossa realidade social. 

Aos 37 anos, o ex-jogador Nilmar, natural do Paraná, conversou com a reportagem da TNT Sports sobre como a depressão e a ansiedade impactou sua vida profissional e pessoal. Com passagens por clubes brasileiros como Internacional, Corinthians e Santos, ele também consolidou uma carreira fora do país, em clubes como o Olympique Lyon, da França, o Villarreal, da Espanha, e o Al-Nasr, de Dubai. 

Nilmar atuando pela Seleção em 2010. Foto: Getty Images

Ao longo dessa trajetória, somou 14 títulos e cerca de cinco prêmios, misturados com campeonatos nacionais e continentais, além de representar a Seleção na Copa do Mundo de 2010. Nem mesmo todas as conquistas foram suficientes para torná-lo verdadeiramente feliz. Com depressão, Nilmar aposentou as chuteiras em 2017 e foi um dos primeiros jogadores a abrir o jogo sobre o assunto.

Essa doença não tem um motivo, né? É químico, e hoje eu sei por ter procurado um profissional, por ter lido sobre, falei com muitas pessoas que passaram por isso e passam até hoje... Então, hoje eu consigo enxergar isso. Mas, no mundo que eu vivi, ainda mais que eu vim do interior, você falava isso antigamente, as pessoas tiravam sarro. Você tinha vergonha de falar isso. Frescura. Ainda mais eu jogador de futebol, realizado. Eu me questionava muito no início. ‘Pô, joguei na Seleção Brasileira, Europa, tô realizado, tenho uma família, filhos, tô no melhor momento da minha vida.’”

No último ano em que estava em Dubai, em 2016, foi quando mais se sentiu triste. O motivo? Problemas contratuais que o afastaram de jogos oficiais, cabendo a ele somente as atividades de treinamento e amistosos. “Eram duas horas de tristeza, nas horas do treinamento, porque eu estava treinando separado e, dentro de casa, eram horas de alegria e felicidade”, conta ele. Apesar disso tudo, a qualidade de vida proporcionada pela cidade árabe e a proximidade do término do contrato o fizeram insistir em suportar aquele momento difícil. 

Nilmar encerrou sua carreira após passar pelo Santos. Foto: Ivan Storti/Santos FC

Distante de poder sentir a energia dos jogos oficiais, foi perdendo o “frio na barriga” que acompanha o profissional de futebol, até que retornou ao Brasil, em julho de 2017, para jogar no Santos. “Eu fui mais por uma oportunidade de recomeço, o contrato era muito bom em termos financeiros. Mas vendo de fora, vejo que não era o momento. Eu segui naquele automático de empresários, pessoas te motivando “vamos recomeçar, vai dar tudo certo e tudo mais”, eu sempre tive aquela confiança “não vai dar tudo certo”.

Djara Fortes, psicóloga do time feminino de futebol do Corinthians, destacou à TNT Sports que as doenças mentais ocorrem e se relacionam também com os jogadores e jogadoras de futebol. 

Djara Fortes é psicóloga da equipe feminina do Corinthians. Foto: Bruno Teixeira/Ag. Corinthians

Segundo ela, essas disfunções são doenças fisiológicas. Assim como existem, por exemplo, doenças do estômago, existem transtornos no cérebro. “O cérebro pode não produzir suficientemente neurotransmissores que são responsáveis pelo prazer, pelo bem-estar, pela alegria, que fazem essa parte positiva, e por conta disso, a gente acaba tendo sensações, sentimentos que mostram que você está com essa doença mental... Seja a ansiedade, a depressão e o pânico”.

Nem todo mundo entende isso. Nilmar também não entendia. A vergonha, o medo, o constrangimento e a pressão ao redor o faziam ter vergonha de assumir o que verdadeiramente estava se passando. 

Até eu entender que era uma doença e não tinha como, porque no início, eu briguei muito e sofri muito com isso, porque eu queria “amanhã vou acordar bem, vou acordar motivado e vou jogar”. Mas não tem nem como. E essa doença dá muita dor no corpo, cansaço. Como você vai fazer isso no futebol? Vai treinar? Não tem como…”

Esses pensamentos equivocados, tão presentes no ambiente do futebol, afetam muitos atletas. O ex-goleiro Aranha, de 40 anos, natural de Minas Gerais, também revelou não ter abertura, inicialmente, ao diálogo da saúde mental. “Eu achava bobeira, achava que não surtia efeito”, comentou o campeão da Libertadores, pelo Santos, e da Copa do Brasil, pelo Palmeiras. 

Aranha foi revelado na Ponte Preta, clube do interior de São Paulo. Foto: Thiago Ribeiro/Agif/Gazeta Press

Hoje, a mentalidade do ex-atleta não é mais a mesma. Para ele, isso se deve muito a dois momentos popularmente conhecidos no futebol: “o raiz” e “o moderno”. Apesar dos saudosismos de muitos, o futebol praticado no século 20 e na década inicial dos anos 2000 carregava estereótipos machistas que interferiam diretamente na saúde mental dos atletas.  

O futebol raiz, como a gente diz, tinha o jogador pipoqueiro, que sentia a pressão, o experiente. Essas características, essas graduações impediam que o jogador tivesse uma ajuda profissional. Imagina se o capitão da equipe tá conversando com a psicóloga. Ele seria visto como fraco mentalmente. Muitas pessoas sabiam que precisavam de um apoio, mas não procuravam com medo de que achassem que ele fosse inferior mentalmente, fraco mentalmente.”

As incertezas a respeito das sensações e a ausência de divulgação impedem que muitas pessoas, inclusive os atletas, identifiquem os sintomas e busquem auxílio de um profissional especializado. De acordo com Djara, nem a própria psicologia do esporte é tão atuante, o que dificulta o diagnóstico e tratamento. 

Querendo ou não, ainda tem muito aquilo de ‘não estou louco’, ‘não estou doente’, ‘não preciso’... As pessoas não procuram e não falam. (...) Quando se fala de um atleta, a cobrança é muito grande. Ele tem a cobrança dele, da comissão técnica, da família... Se tornando uma pessoa pública, tem toda uma torcida que apoia ou vai contra. Então, isso pode ser prejudicial se não cuidar da saúde.” 

A saúde mental fragilizada impede que até episódios vitoriosos e de celebração sejam aproveitados. “As pessoas perdem prazer pelas coisas que elas mais gostam na vida. Então se eu gosto muito de jogar futebol, mas nem no futebol eu tô me motivando, tem alguma coisa ali, somado a uma série de fatores por um tempo contínuo”, destacou a psicóloga.

Esse episódio ocorreu na vida do ex-goleiro Aranha, que relembrou estar em meio à conquista de um título e, mesmo assim, não se sentir satisfeito. 

Já aconteceu comigo de tá dentro de campo, com 60 mil pessoas na arquibancada, conquistar um título, o juiz entregar a bola do título na minha mão, apitar o final do jogo, e dá pra ver todo mundo comemorando na imagem e eu com uma tristeza profunda dentro de mim, assim, e eu quase que não reagia. Eu fiquei muito pensativo com isso, com essa atitude minha e até mesmo na hora eu falei ‘nossa, era pra eu tá feliz’ e eu vendo todo mundo feliz e pulando e comemorando e a torcida cantando, uma festa.”

Aranha abre o jogo sobre a saúde mental no mundo do futebol e sua experiência:

 

A expectativa de ser “super-herói”, o machismo e a pressão que Nilmar sentiu impactou diretamente em sua saúde mental, fazendo com que o término da carreira dentro dos gramados ocorresse antes do planejado. 

Sempre sentia cansaço físico e isso estava me incomodando e pensava ‘como assim?’. Tava me sentindo diferente e sempre fui muito quieto, mesmo em casa, com minha esposa e minha família nunca fui de comentar tanto... até que um dia deu gatilho, né? 

O estopim foi no segundo confronto após a estreia no Santos. Nilmar sentiu uma carga emocional muito grande. A ansiedade tomou a mente e fez com que o corpo parasse. “O copo encheu, vamos dizer assim, né? Senti uma dormência, algo que eu nunca tinha sentido, foi só tristeza (...)”.

Exames clínicos não constataram nada. O impacto era na mente. Assumir a condição e a necessidade de tratamento foi um desafio, mas que Nilmar abraçou. Foi um dos primeiros atletas do universo futebolístico a sinalizar que não é só o corpo que precisa de cuidados.

Veja depoimento de Nilmar sobre a depressão que enfrentou:

 

Após assumir a condição, isolou-se por cerca de seis meses, enquanto prosseguia com os tratamentos. O melhor jogador da América do ano de 2008 também foi procurado por colegas dos gramados, que passaram pela mesma questão, mas nunca comentaram.

Conhecidos que tiveram e até hoje ninguém sabe, porque tem né... tinha... os clubes acobertavam muito isso, até mesmo pra proteger. Mas eu sempre fui muito: “não, pode falar a verdade." 

Como as pessoas nem sempre entendem sobre depressão, ansiedade e outros disturbios, não conseguem perceber a dificuldade do outro e acabam trazendo cobranças, de acordo com a profissional de saúde mental. 

'Ah, é frescura, você tem dinheiro, você é famoso, porque você tá com isso?’. As pessoas não entendem e cobram. Sem essa força pra se reerguer é pior ainda, porque a culpa vai aumentando”. É difícil pra quem está sentindo relatar o que está sentindo. É diferente de quando você tem um machucado com uma dor que você consegue visualizar. Essas questões mentais são muito do que você sente, por isso que é difícil passar."

De acordo com a análise de Djara, os problemas com a saúde mental não são específicos de um público e qualquer pessoa pode passar por essa condição. Ter conhecimento sobre o tema ajuda a desmitificar alguns preconceitos e colabora positivamente no tratamento de quem está passando por essa dificuldade, já que se a pessoa não consegue ajudar pode direcionar a um psiquiatra ou psicólogo.

“O número de pessoas com essas doenças cresceu, mas a busca por ajuda também cresceu. Uma das medidas importantes é trazer a informação para as pessoas, trazer a informação para os atletas, o que é cada doença dessa. Às vezes o excesso de informação também confunde e também pode atrapalhar. Então, é importante trazer essas informações direcionadas e, por isso, eu acho que o Setembro Amarelo é muito importante, porque ela (a campanha) foca muito no quanto é importante a gente cuidar da nossa saúde mental tanto quanto a física. Entendendo um pouco mais, a gente acolhe as pessoas.”

Djara Fortes comenta sobre a importância dos cuidados com a Saúde Mental: 

 
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