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Três porquinhos palestrinos

Uma vitória histórica que ainda não garante nada - mas que pode ser tudo para o Palmeiras contra o melhor time da década.

Por Mauro Beting

Rony e Gallardo, Palmeiras x River Plate

Rony e Gallardo, Palmeiras x River Plate

Quando Gabriel Menino dominou de letra uma bola longa que separou marmanjos dos muchachos, o River (time que mais venceu jogos na Libertadores desde 1960, mais gols marcou, menos perdeu em casa, e mais títulos conquistou na década) perdia por inesperados 2 a 0 em Avellaneda. River que começou a perder também a cabeça com o ótimo colombiano Carrascal chutando logo depois o múltiplo palmeirense. Menino grande que era meia no inesperado 4-3-3 emulado no de Gallardo, e mais um lateral no insuspeito e bem ajustado 5-4-1 sem a bola.

Logo depois do caseiro árbitro uruguaio corretamente mostrar o vermelho direto, o ótimo (porém apagado) uruguaio De la Cruz tentou irritar Menino com uma pedalada. O maduro palmeirense de seleção fez que não era com ele. Parecia argentino irritando brasileiro e quase sempre conseguindo. Não parecia aquele River que era favorito antes de a bola rolar na 19ª semifinal da rica história millonaria.

Agora parece não ter mais chance esse ótimo River de se recuperar de uma das três piores derrotas do melhor mandante na história da Libertadores. Torneio que viu o Palmeiras se tornar o brasileiro que mais jogos venceu desde 1960. Ampliar sua sequência recordista de 11 partidas invictas. E seguir sendo o clube do Brasil que mais gols fez no torneio, mais jogos fora de casa venceu. E mais uma vez calou os que diziam que o Palmeiras sentiria quando enfrentasse alguém do seu tamanho.

Gigante.

Como Menino. Como Danilo. Como Patrick de Paula. Os três porquinhos que há um ano ainda não eram profissionais. As três felizes apostas táticas e físicas e também muito técnicas de Abel para frear o jogo fluido do River que não veio a campo. Porque o Palmeiras foi senhor dele depois de abrir o placar aos 27 em sua primeira chance. Cortesia de Armani, que falhou feio e deu a bola para Roni voltar a acertar tudo que errava nos primeiros meses de verde.

Nos primeiros 5 minutos, o River de Gallardo repetiu o que a Banda Roja (com o Muñeco em campo com a camisa 10) fizera na primeira semifinal de 1999 em Buenos Aires: só não abriu o placar desta vez por Weverton repetir São Marcos há 21 anos e fazer um milagre - Marcão fez cinco naquela noite em Núñez. O goleiro de 2021 não precisou de tanto. Até pelo Palmeiras se ajustar dando menos espaços. E ganhar com o gol de Roni a confiança para se soltar. Teve na sequência um belo lance de gol com Scarpa bem anulado por impedimento de Luiz Adriano. Voltou a sofrer pressão e até bola no travessão levou até o final da etapa.

Mas quando fez 2 a 0 com o artilheiro dando uma banda por Rojas, com 1 minuto, o River desmoronou de vez. A tarjeta roja aos 14 para o ponta Carrascal veio pouco antes do gol que Scarpa botou na cabeça de Viña. Gallardo demorou então para mexer. Abel usou bem suas ótimas opções de banco e o Palmeiras empilhou ao final 9 chances contra 8 do River. Mesmo que a bola tenha sido mais portenha como se esperava desde sempre, o placar foi daqueles que não se aguardava jamais.

O River que era favorito agora terá que jogar tudo que jogou na final perdida de 2019, com a eficiência das conquistas de 2018 e 2015, para superar um Palmeiras que vem em maratona (jogou 61 vezes em 12 meses contra apenas 28 do rival), vinha de quatro partidas discutíveis, mas que mesmo assim conseguiu um placar histórico. Daqueles para contar por 70 anos como a conquista da Copa Rio de 1951. Daquelas epopeias que os vovôs como Brandãozinho contariam aos netos nos seus 89 anos de vida.

Ponta-esquerda que estava no grupo campeão intercontinental em 1951, mas não jogou. Último remanescente palmeirense da conquista internacional que partiu na mesma manhã da vitória espetacular contra o River em 2021. Uma das maiores atuações alviverdes no século XXI. Daquelas que o último sobrevivente de 1951 contaria aos netos. Como Menino, Danilo e Patrick vão dizer aos deles que o trio estava em Avellaneda na primeira noite desses homens maduros que calaram as críticas, os chatos como eu, e os corneteiros como nós que não queriam mais ver Rony pintado de verde.

Que insistiam com alguma razão que a melhor campanha na fase de grupos (pela terceira vez seguida) na Liberta-20 também se devia à fragilidade dos rivais. Que os superados Delfín e Libertad não eram parâmetros.

Mas que Palmeiras em Libertadores também é outro parâmetro, até quem é anti sabe quanto é duro secar.

Ótimo sempre lembrar. Maravilhoso pra sempre recordar a melhor homenagem que o Palmeiras poderá fazer nos 70 anos da Copa Rio: tentar voltar ao Maracanã para disputar um título internacional

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