Champions League

Ex-Sheriff, Victor Oliveira exalta clube moldavo, que vive 'conto de fadas' na Champions League 2021/22

Zagueiro, que hoje atua pelo Santa Cruz, passou um ano e meio na clube 

Por Gabriel Menezes

Victor Oliveira nos tempos de Sheriff; brasileiro passou um ano e meio no clube moldavo (ou seria transnístrio?)(Arquivo pessoal)

Victor Oliveira nos tempos de Sheriff; brasileiro passou um ano e meio no clube moldavo (ou seria transnístrio?) | Arquivo pessoal

A UEFA Champions League sempre reserva algumas grandes histórias a serem contadas. Na edição 2021/22 da maior competição de clubes do mundo, uma delas é a do Sheriff, pequenino time moldavo que faz sua estreia no torneio. Além disso, o clube é o primeiro representante de seu país a jogar a fase de grupos da Champions. Em entrevista exclusiva à TNT Sports Brasil, o zagueiro Victor Oliveira, que passou um ano e meio na equipe, destrinchou o que é o Sheriff.

Jogador do Santa Cruz nos dias de hoje, Victor vestiu a camisa do Sheriff entre os anos de 2016 e 2018 e a principal lembrança que o brasileiro destaca sobre o clube é a estrutura "fora dos padrões" que encontrou por lá.

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"A estrutura se compara à de grandes clubes europeus. Todo atleta quer trabalhar com uma estrutura igual à que o Sheriff oferece. O que eu vi no Sheriff eu não tinha visto em nenhum lugar no Brasil, incluindo Série A. E olha que eu joguei no Corinthians na base, com o CT Joaquim Grava, que é de primeiríssima qualidade, já pronto. Mas o porte no Sheriff é quase uma ostentação."

A gente até brincava que eles tinham uma Ferrari, mas não sabiam pilotar. Eu nunca vi nada próximo. Eles têm de cinco a seis campos de treinamento, têm estádio, têm um hotel. E além da parte do futebol profissional, tudo também inclui as pessoas que moram em Tiraspol, para que elas tenham um centro esportivo, então tem quadras de tênis, basquete, piscina para natação, um centro médico que servia para nós jogadores e para a população."


Em russo, um vídeo que demonstra as instalações do Sheriff na Moldávia
 

Apesar disso, Victor Oliveira destaca que não esperava ver o clube na fase de grupos da Champions League. Por lá, o defensor chegou a disputar a fase de grupos da Europa League, segundo torneio continental mais importante do Velho Continente.

"A curto prazo, eu digo pra você que não achava uma coisa palpável, até porque mudaram o formato do campeonato e, para chegar à fase de grupos ficou ainda mais difícil do que quando eu estava lá. O clube tem uma estrutura gigantesca, pensa grande, mas em três anos, realmente não achava que aconteceria. Mas, dentro do que o clube oferece em condições de trabalho, não é uma surpresa."

Em um grupo com Real Madrid, Inter de Milão e Shakhtar, dá pra surpreender?

A missão do Sheriff, novato na Liga dos Campeões, não é das mais simples. Afinal, terá de enfrentar Real Madrid, Internazionale e Shakhtar Donetsk logo na fase de grupos, depois de já ter eliminado times como Estrela Vermelha e Dínamo Zagreb nas fases preliminares. Para Victor Oliveira, uma classificação - até mesmo para a Europa League, terminando na 3ª posição - é quase impossível.

"O buraco agora é mais embaixo. Conseguir tirar um ponto de alguém, buscar um empate, pode acontecer, mas uma classificação acredito que é quase impossível. Não é desfazendo, mas é uma realidade. Os investimentos de Real Madrid e Inter são muito superiores e é obrigação deles fazer os pontos sobre o Sheriff. E futebol é assim: Em um jogo pode ter zebra, mas em seis fica mais difícil."

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Ainda assim, o zagueiro do Santa destaca que os ex-companheiros de clube devem estar contentes com o grupo para o qual foram sorteados, porque terão a oportunidade de viver momentos históricos em suas carreiras.

Acredito que a expectativa seja bem grande, porque caíram num grupo difícil, mas bom de jogar, porque vão jogar contra grandes clubes e em grandes lugares, coisa que qualquer jogador sonharia. É um dos melhores grupos para desfrutar de uma Champions League."

 
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O lado político: o Sheriff representa a Moldávia, mas é da região da Transnístria, território independente, mas que não é reconhecido internacionalmente

Parece confuso? Pode até ser um pouco, mas a explicação é a seguinte: a Moldávia foi parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) entre 1940 e 1991, quando o Estado socialista foi dissolvido oficialmente. Desde então, a República da Moldávia foi fundada como um país independente.

No entanto, uma região na parte leste do país (próximo à fronteira com a Ucrânia), conhecida no Brasil como Transnístria, se declara independente desde 1990, quando a URSS já fazia sua transição para a dissolução. A cidade onde o Sheriff se localiza, Tiraspol, é a capital da Transnístria.

Apesar de não ser reconhecido internacionalmente por nenhum membro da comunidade internacional - nem a Rússia, que apoiou a independência e até hoje auxília a Transnístria, o reconhece - o território goza de grande autonomia em relação à Moldávia, tendo moeda própria, usando o russo como língua oficial - e rejeitando o romeno, que é a língua oficial da Moldávia - e mantendo a bandeira que a República Socialista Soviética da Moldávia utilizava até a dissolução da URSS.

Um busto de Vladimir Lênin, primeiro governante máximo da União Soviética, fica em frente à Câmara de Tiraspol (Foto: Getty Images)

O choque cultural ao chegar ao país, segundo Victor Oliveira, é grande. E a questão política, que causa essa "confusão" inicial a quem descobre a região, contribui, mas pode ser superada com o tempo. E, como ele mesmo conta, ele foi "de peito aberto" para entender mais da cultura local e tentar se adaptar ao novo país.

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"Quando eu saí daqui, eu não conhecia esse lado político. E aí, quando cheguei, comecei a perguntar aos brasileiros para saber onde eu estava pisando. E eles me contaram da parte política e eu fui entendendo conforme ia vivenciando. A primeira impressão é de você se assustar um pouco, porque é bem diferente. É como uma viagem ao passado mesmo, principalmente quando você vê os carros, que são bem velhos, tantos os pessoais quanto caminhões do exército, ônibus. Mas você vai se acostumando, isso vai fazendo parte do seu dia a dia e, de repente, aquilo fica comum."

Foto de 2008 retrata um dos ônibus do sistema de transporte público da Transnístria (Foto: Getty Images)

O grande problema do brasileiro quando se muda é querer levar o Brasil para o lugar, ao invés de tentar se adaptar. Acho que por isso alguns atletas não conseguem se adaptar fora do país, por não ter o discernimento de que nós que temos que nos adaptar, não o país nos adaptar a nós."

Outro ponto que chama atenção em relação ao Sheriff está intimamente ligado ao nome do clube. Afinal, Sheriff é a empresa dona da equipe e que também controla outros negócios importantes na cidade de Tiraspol, como postos de combustível e mercados, por exemplo. E, para o brasileiro, o futebol pode ter um uso político também, para expor a influência russa na região.

"Pela empresa ser gerida por um russo e estarmos num local de forte influência russa, acho que realmente existia esse lado político muito forte. Mas nossa relação com o dono não existia muito. Poucas vezes o víamos por lá, quando estive por lá, ele nunca falou com a gente diretamente. Mas percebia o poder que ele exercia sobre a cidade e a região. E acho que o Sheriff, o clube, era uma forma de expandir o poder e mostrar para o mundo que existe uma região na Moldávia sob forte influência russa."

O Sheriff estreia na Champions League nesta quarta (15), enfrentando o Shakhtar Donetsk, e você acompanha tudo a partir das 13h30 no Space e na HBOMax!

 
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