Futebol Brasileiro

Em meio a crise, Palmeiras diminui salários, prorroga pagamento de direitos de imagem e cria medida para segurar sócio-torcedor

Com receitas de patrocínio garantidas e sem bilheteria, diretoria não pensa em contratações e trabalha para renegociar pagamentos a fazer e a receber
 

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Por Rodrigo Fragoso e Mauro Beting

Palmeiras não deve investir em novas contratações(Cesar Greco/Agência Palmeiras)

Palmeiras não deve investir em novas contratações | Cesar Greco/Agência Palmeiras

O Palmeiras foi um dos primeiros clubes no Brasil a entender que a paralisação do futebol era necessária e oficializar a posição. O impacto financeiro de uma medida como essa foi colocado em segundo plano, visando a segurança e o bem-estar de todos os envolvidos no clube social e também no dia-a-dia do futebol. Há quem diga que o Palmeiras tenha tomado essa decisão por se apoiar na sua forte receita de patrocínio, que se mantém intacta, mas a realidade não é bem assim.

De acordo com a apuração da reportagem, até o final do mês de abril o clube concluirá um estudo sobre o impacto financeiro causado pela paralisação do futebol e pelo fechamento do clube social por tempo indeterminado. Fontes no clube admitem que o prejuízo com bilheterias é tratado como impossível de ser solucionado, enquanto existe a esperança de minimizar as perdas do projeto de sócio-torcedor do clube com uma medida de crédito anunciada logo no chegada da pandemia ao país.

Já em 2019, a reportagem do Esporte Interativo apurou que o Palmeiras colocou em seu planejamento de previsão orçamentária de 2020 a diminuição de 14% das despesas com futebol profissional e 13% das despesas operacionais. Ainda que o clube não tenha conquistado títulos no ano passado, a ideia de aumento dos investimentos em grandes contratações foi preterida pela preferência de utilização das joias da base em conjunto com a saída de alguns "reservas de luxo" do elenco principal. Um Palmeiras mais cauteloso entrou em ação antes mesmo da crise e, agora, espera conseguir se manter estável diante de um cenário ainda nebuloso para todos.

"JUNTOS VAMOS MUITO MAIS LONGE"


Conselheira do Palmeiras, Leila Pereira é presidente dos patrocinadores do clube desde 2015 e, nos bastidores, já é tratada como candidata à principal cadeira do clube nas próximas eleições, programadas para 2021. A renovação contratual desses patrocinadores garantiu ao clube a perspectiva de alcançar, em meio ao cumprimento de metas, cerca de 136 milhões de reais anualmente. O valor fixo, sem bônus, é de 81 milhões de reais, gerando média mensal de quase 7 milhões de reais. E segundo conselheiros da situação e da oposição, a expectativa no clube é de que a crise não modifique o cenário no decorrer de 2020.

Muitos patrocinadores estão renegociando acordos com os clubes (alguns até buscando um rompimento) por conta da falta de exposição em meio a paralisação do futebol e, claro, a crise econômica que tem atrapalhado as finanças dessas empresas, fato que não aconteceu na relação entre Palmeiras, Crefisa e FAM. Até o momento, a informação é de que o clube não recebeu nenhuma manifestação por parte de seus patrocinadores sobre qualquer reunião para mexer no contrato, restabelecer valores, buscar descontos ou postergar pagamentos. Pelo contrário, recentemente, nas suas redes sociais, Leila Pereira festejou os cinco anos de parceria e deixou recado sobre longevidade da parceria: "juntos vamos muito mais longe".

Cesar Greco/Agência Palmeiras
Patrocinadores do Palmeiras não vão fazer redução no pagamento

CONTRATAÇÕES TRAVADAS E NOVAS NEGOCIAÇÕES DE PAGAMENTO E RECEBIMENTO EM ANDAMENTO


Não há qualquer negociação do Palmeiras com qualquer jogador nesse momento, segundo apuração do Esporte Interativo. A possibilidade é tratada dentro do clube como "absurda". O principal desejo do Palmeiras antes da crise atende por Daniel Muñoz e é lateral direito do Atlético Nacional-COL, mas a negociação foi dificultada pela diretoria colombiana e travou. Uma briga jurídica está sendo travada entre os clubes por conta de uma dívida do Palmeiras envolvendo a transação de Miguel Borja. Na FIFA, o Atlético Nacional conquistou o direito de receber três milhões de dólares nos próximos 45 dias por 30% do atacante, valor previsto em contrato caso ele não fosse vendido dois anos e meio depois da assinatura de contrato com o Palmeiras. Por outro lado, o departamento jurídico do clube paulista vai recorrer ao CAS, já que entende poder pagar até o fim do contrato de Borja, ou seja, dezembro de 2021.

Enquanto não há uma decisão sobre o caso Borja, o diretor Anderson Barros trabalha em conjunto com o presidente Mauricio Galiotte para renegociar pagamentos do clube, entre eles, claro, de jogadores. Contratado para resolver os problemas da lateral esquerda, Matías Viña custou cerca de 17 milhões de reais aos cofres do clube, valor que foi parcelado em três vezes. O Palmeiras já pagou dois terços da parcela de março e negociou para pagar o restante do valor no segundo semestre. Por outro lado, o Dínamo de Kiev-UCR, fez o mesmo pedido de adiamento de pagamento de parcelas para o segundo semestre.

AÇÃO PARA PROGRAMA DE SÓCIO-TORCEDOR DEVE MINIMIZAR PERDAS ESPERADAS NO PROJETO
 

O projeto de sócio-torcedor do Palmeiras, Sócio-Avanti, é importante para as receitas do clube ao longo do ano, desde que minimize a inadimplência dos sócios que geralmente decorre de alguma frustração esportiva. Conforme noticiou o Portal Nosso Palestra, o clube encerrou a temporada passada com o pior número de sócios adimplentes desde 2013: cerca 53 mil torcedores. Em 2015, por exemplo, o Palmeiras chegou a alcançar 120 mil sócios-torcedores adimplentes com as chegadas de Alexandre Mattos, Dudu e uma reformulação no futebol do clube. 

Com a paralisação do futebol e o clima de instabilidade econômica no país, a perspectiva de um grande número de inadimplência ou cancelamentos dos planos fez com que o departamento de marketing agisse rápido para montar um plano de ação que poderia manter o torcedor pagando uma assinatura sem poder usufruir do seu principal benefício, ou seja, o desconto nos ingressos das partidas do seu clube do coração: o valor pago no plano não se perderá, mas se tornará crédito para a aquisição de ingressos. Nesse caso, além do desconto que o torcedor já tem pelo seu plano, ele poderá usar o dinheiro da mensalidade em tempos de paralisação para abater ainda mais o valor do ingresso de uma partida, assim que o futebol voltar. 

MILHÕES EM RECEITAS DE BILHETERIA GERAM IMPACTO IMPORTANTE


Vice-líder geral do Paulistão, atrás do Santo André com o mesmo número de pontos, porém com uma vitória a menos, o clube já havia garantido a classificação para a próxima fase do campeonato estadual. Na Copa Libertadores da América, foram duas partidas disputadas e duas vitórias conquistadas. Dentro dessas campanhas, foram seis duelos disputados dentro de casa. No Paulistão, arrecadação média de 1.155.724,00 reais por jogo. Na única partida da competição internacional disputada em casa, contra o Guaraní-PAR, renda de 1.900.020. 

Com a paralisação do futebol no final de março, o Palmeiras deixou de disputar entre duas e cinco partidas como mandante. O último jogo da primeira fase do Paulistão, contra o Água Santa, e o duelo contra o Bolívar pela Copa Libertadores eram jogos de bilheteriam garantida, enquanto as três fases finais do Paulistão dependeriam do desempenho da equipe na tabela de classificação e no avanço em jogos de mata-mata. 

Em valores absolutos, o clube pode calcular perda de, no mínimo, três milhões de reais, tomando como base a partida diante do Guaraní para projetar um valor arrecadado contra o Bolívar e a média de renda bruta em partidas do Paulistão como projeção de valores para o duelo contra o Água Santa. Uma projeção esportiva otimista, colocando o Palmeiras na liderança geral da competição na primeira fase e avançando até a final, traria mais três partidas de mata-mata. Usando a média de valores arrecadados no Paulistão, o mínimo seria de cerca de mais 3 milhões brutos entrando nos cofres alviverdes. E ainda vale lembrar que jogos de mata-mata costumam trazer valores até maiores do que de partidas de primeira fase de Libertadores.

Partindo do planejamento da previsão orçamentária do clube, que é considerada conservadora, projetando quartas-de final de Copa do Brasil e G4 de Brasileirão, o elenco alcançaria no mínimo a semifinal da competição estadual, mas por se tratar de jogo único com mando daquele que melhor pontuou até aquele momento na competição, é difícil saber se esse jogo teria mando alviverde. A realidade é que o clube perdeu entre três e seis milhões de reais, em cálculo médio, de arrecadação bruta em abril. Com custos operacionais e descontos do projeto de sócio-torcedor, a média é de 50% do valor bruto de cada renda entrando no cofre do clube. Nesse caso, o Palmeiras perdeu, no mínimo, entre 1,5 milhão e 3 milhões de reais em renda líquida desse período.

Cesar Greco/Agência Palmeiras
Palmeiras já retomou os treinos, mas mantendo os atletas em casa

CONSENSO É PALAVRA DE ORDEM NO CLUBE


Nenhum clube de futebol no mundo sabe o que está enfrentando. Não se sabe qual o tamanho desse adversário e nem mesmo quanto tempo esse jogo vai durar até que o futebol possa voltar a acontecer como antes. Por isso, dentro do Palmeiras, a reportagem do Esporte Interativo apurou que todas as medidas decorrentes dessa crise serão tomadas com cautela e em conjunto com aqueles que forem afetados. Redução salarial, renegociações, acordos com fornecedores e qualquer outra mudança que possa ocorrer buscará sempre o consenso para que, ao término desse jogo contra o COVID-19, não haja nenhuma outra crise a ser administrada.

TREINOS VOLTARAM, MAS À DISTÂNCIA

O Palmeiras já encerrou o período de férias dos jogadores. Porém, seguindo recomendações das entidades de saúde, manteve o distanciamento social. As atividades do Verdão serão realizadas através de videoconferência (com os atletas em suas respectivas residências) e terá acompanhamento de Vanderlei Luxemburgo e sua comissão técnica.

ATENÇÃO ESPECIAL À BASE

A quarentena causada pelo novo coronavírus tem efeitos diferentes em atletas, seja fisica ou psicologicamente. Diante desse cenário, o Palmeiras tem dado atenção especial a seus atletas em formação. Atletas que, por terem menos de 14 anos, não podem ter um contrato com o clube, têm recebido auxílio da instituição, com cestas básicas. Além disso, os mais de 200 atletas das categorias de base recebem acompanhamento psicológico, sendo atendidos uma vez a cada 15 dias. O clube tem até indicações culturais e 'cartilha' para os pais para ajudar os jovens jogadores nesse período delicado.

 
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