Futebol Brasileiro

Fluminense age para reduzir impactos da crise: 'Não temos receita no momento'

Clube reduziu salário de atletas, fez ação especial para os sócios, está renegociando dívidas e não descarta a venda de um jogador quando mercado reabrir para equilibrar as contas

 

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Por Aline Nastari e Bruno Formiga

Jogadores do Fluminense em protesto por entrarem em campo, pouco antes da paralisação(Lucas Merçon / Fluminense FC)

Jogadores do Fluminense em protesto por entrarem em campo, pouco antes da paralisação | Lucas Merçon / Fluminense FC

Poucos são os clubes no Brasil que têm se mexido explicitamente para minimizar os impactos da pandemia do novo coronavírus nas suas finanças como o Fluminense. O Tricolor está empenhado em reduzir as dívidas e buscar recursos para esse período de crise. E, por enquanto, os esforços estão surtindo efeito. O Esporte Interativo conversou com o presidente do clube, Mário Bittencourt, que alertou sobre a real a situação dos clubes nesse momento.

Não temos nenhuma receita no momento, ninguém está nos pagando. Não só a gente, todos os clubes do Brasil.

Foto: Lucas Merçon / Fluminense F.C

A prioridade do clube tem sido pagar salários. Para conseguir cumprir com os compromissos, o Fluminense pediu a suspensão de penhora na Justiça, deu descontos para sócios proprietários e contribuintes, dobrou os benefícios dos sócios-torcedores,  reduziu em 15% a remuneração de diretores, gerentes e prestadores de serviços e negociou também a redução dos vencimentos dos jogadores. A instituição negocia as cotas de televisão do Estadual e a primeira parcela do Brasileirão, e cogita ainda a venda de um jogador para equilibrar as contas quando o período crítico passar.

O Fluminense projetava para 2020 uma receita entre R$ 200 milhões e R$ 230 milhões. Esse orçamento será refeito e ainda não há como prever os reais efeitos da covid-19 nas contas, mas a redução é inevitável, garante Mário Bittencourt.

Não tem como saber ainda o quanto perderemos de receita, mas pelos estudos primários de nossa equipe financeira estima-se que perderemos 25%.

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Renegociação de dívidas

Para conseguir sobreviver diante da crise atual, o Fluminense pediu na Justiça a interrupção do Ato Trabalhista e a suspensão da penhora de uma dívida contraída na década de 90. A diretoria tricolor conseguiu a paralisação do pagamento do Ato Trabalhista por três meses, o que gerou uma economia imediata de quase R$4 milhões - a equipe paga R$1,2 milhão de dívidas com ex-funcionários e jogadores contraídas até 2011.

Além disso, a Justiça concedeu a suspensão da penhora referente ao pagamento da dívida de um casarão em Laranjeiras por seis meses, liberando o valor de R$2,8 milhões. Antes mesmo do julgamento, o Fluminense conseguiu fazer um acordo com o autor do processo. O clube se comprometeu em redirecionar esses valores para o pagamento de salários, plano de saúde e alimentação durante a pandemia.

As dívidas com atletas e funcionários contraídas até 2011 estão incluídas nas parcelas do Ato Trabalhista. As que foram feitas após essa data, o clube tem buscado acordo direto com os autores dos processos quando as ações judiciais chegam na fase de penhora. Um exemplo é a dívida com o técnico Marcelo Oliveira, que comandou a equipe em 2018. O Fluminense busca um novo acordo com os representantes do treinador.

Em meio à crise, a equipe não conseguiu pagar parcelas dos dois jogadores contratados no início dessa temporada: Fernando Pacheco e Michel Araújo. O clube adquiriu 50% dos direitos deles, que se tornaram os maiores investimentos do Tricolor carioca em 2020.

Pacheco foi contratado do Sporting Cristal, do Peru, em mm acordo de 700 mil dólares pagos em 10 vezes. Já Michel Araújo foi comprado do Racing, do Uruguai, pelo valor de 800 mil dólares, divididos em seis parcelas. Flu entrou em contato com os clubes e renegociou os débitos.

Sócios

A crise impacta também sócios proprietários e contribuintes. E para aliviar os custos e evitar inadimplência e cancelamentos, o Fluminense anunciou uma redução de 10% a 15% nas mensalidades enquanto durar a paralisação, já que a sede do clube está fechada por consequência da pandemia.

Para evitar também a evasão do 'Sócio Futebol' nesse período, o clube lançou uma ação dobrando os benefícios dos associados. O resultado foi positivo. A taxa de adesão de no período da quarentena foi maior que a de evasão: para cada associado que pediu desligamento, o programa teve três novos sócios. Para se ter uma ideia, esse número registrado foi ainda maior que os de dezembro e janeiro, meses de poucos jogos.

Torcedor do Fluminense vai ser fundamental em meio à pandemia | Lucas Merçon / Fluminense F.C

O objetivo foi minimizar os efeitos da ausência de partidas e manter os torcedores perto, conscientizando que esse é um movimento que o apaixonado pelo clube pode fazer em um momento de crise.

A ação feita dá desconto extra nos ingressos para os jogos. Os torcedores que assinam os planos 'Sócio Futebol', 'Eterno Amor' ou 'Pacote de Jogos', que dão 50% de desconto nas entradas para as partidas com mando de campo, passaram a ter 100%. Já os assinantes dos planos 'Tricolor de coração', 'Pacote Futebol' e 'Check-ins 2020', que têm direito a um ingresso, ganham um extra. A duração dos benefícios depende do tempo de paralisação. Além disso, será lançado no segundo semestre um programa de pontos, onde a pontuação dos sócios durante a quarentena terá valor dobrado. O último benefício anunciado foi uma placa móvel atrás do gol do Setor Sul do Maracanã com os nomes dos sócios.

“O Fluminense continua contando com seus sócios e torcedores para superar essa crise momentânea. Com a paralisação causada pela pandemia, o 'Sócio Futebol' se tornou uma das poucas fontes de receita recorrentes do clube e tem sido fundamental para manter as atividades, incluindo o pagamento dos salários de jogadores e funcionários”, destaca o presidente Mario Bittencourt.

Redução de salários

Gerentes, diretores e prestadores de serviços propuseram uma redução de 15% nos seus vencimentos enquanto durar essa situação. O objetivo foi ajudar no pagamento dos funcionários que têm uma faixa salarial mais baixa.

Além disso, para garantir pagamentos em dia, o Fluminense fez um acordo coletivo com os jogadores para redução dos vencimentos. Os atletas renunciaram em março 15% do salário e 25% no mês de maio. O pagamento de março será dividido em duas vezes com a primeira parcela, de 65%, de forma imediata, e os outros 20% até dezembro.

Foto: Lucas Merçon / Fluminense F.C

E abril? O mês ficou reservado para antecipação de férias aos jogadores. O pagamento do período será integral, sendo 50% até 31 de maio e os outros 50%, somados ao 1/3 constitucional de férias, até o fim do ano. A negociação foi diretamente entre o presidente Mário Bittencourt, o diretor de futebol Paulo Angioni e os líderes do elenco.

A partir de junho, se os jogos forem retomados, os salários voltam ao normal. Caso contrário, uma nova rodada de negociação vai acontecer.

“Negociei com nossos jogadores, que elegeram como representantes Muriel, Nene, Hudson, Igor Julião e Digão. O Odair me ajudou nesse diálogo. Eles entenderam a dificuldade do clube e acredito que estejam vendo nosso esforço de cumprir as coisas que combinamos. Nesse momento até clubes que têm situação financeira boa estão passando dificuldades. Imagine a gente que tem uma situação muito ruim..."

Para garantir o equilíbrio no acordo entre clube e plantel, foi colocado uma cláusula para proteger os atletas. Caso o Fluminense não quite tudo referente a 2020 até o fim do ano, eles passam a ter o direito de receber todo valor renunciado.

“Um bom acordo entre patrão-empregado ou clube e jogadores é quando fica equilibrado e nós buscamos isso. Acho justíssimo. Vamos nos esforçar para cumprir, mas não tem multa e nem penalidade para o clube”.

Assim como os gerentes, a comissão técnica do Fluminense abriu mão de parte do salário antes mesmo do acordo com jogadores. Nesse caso, a negociação foi feita de forma individual, e a redução de salário variou de 15% a 25%.

Os demais funcionários que recebem até 5 mil são agora a prioridade de pagamento do clube. Para quem ganha até quatro salários, a instituição entregou cestas básicas. Foram 443 famílias contempladas com alimentos para um mês. O Fluminense se colocou à disposição para dar alimentos para funcionários que recebem mais que esse valor, mas estejam necessitando. O presidente do clube, Mário Bittencourt, deixou claro ainda que caso seja necessário, repetirão a ação no próximo mês.

Quitamos a folha de fevereiro de quem ganha até R$5 mil reais e estamos tentando suprir a necessidade dos nossos funcionários. Quem estiver precisando de comida, vamos ajudar.

Patrocinadores

O Azeite Royal, que era patrocinador dos quatro grandes do Rio e do Maracanã, encerrou os contratos em meio à pandemia e anunciou que nesse momento de crise a prioridade da marca é outra. Os demais patrocinadores estão em negociação de permanência, como a empresa de ônibus 'Doce Rio'.

Novos patrocinadores, por enquanto, não estão acertados. O departamento comercial do Fluminense, mesmo com a paralisação, continua trabalhando em home office e buscando novos parceiros, o que inclui um patrocinador master. O clube afirma estar conversando com algumas marcas. Mas qualquer acordo só passará a valer quando os jogos forem retomados.

Venda de jogador (Marcos Paulo)

A crise no mundo do futebol gerada pela pandemia do novo coronavírus trouxe a necessidade de novas receitas. E a venda de atletas é sempre um caminho. Apesar de ter negado no início do ano uma proposta do CSKA, da Rússia, pelo atacante Marcos Paulo, o Fluminense já cogita usar o jogador para ajudar a sanar as dívidas.

Marcos Paulo tem 19 anos e é um dos principais ativos do clube, com contrato até 30 de junho de 2021 e multa rescisória de 45 milhões de euros para fora do país.

“Uma das poucas fontes que o clube tem hoje é a venda de jogadores. Sem a pandemia já era isso, com a pandemia mais ainda. Não tem nada de concreto sobre o Marcos Paulo, mas é um jogador que teve muitas sondagens no início do ano e se reabrir o mercado, certamente vão chegar propostas pelo Marcos Paulo. Na linha dos jogadores que a gente tem, a lógica é que ele tenha as melhores propostas e que tenda a sair no meio do ano ou no final do ano. É a tendência, não sei se vai acontecer. Ele tem contrato conosco que ultrapassa 2021, a relação é ótima, a gente sempre se fala das possibilidades. Se a gente tiver uma excelente proposta dentro do momento atual, porque os preços vão baixar, uma proposta justa que ajude o Fluminense, vamos ter que fazer. Mas é embrionário. Minha intenção sempre é ficar com jogadores o máximo de tempo que puder. Hoje não tem nada, mas há possibilidade sim dele ser vendido".

 

Lançamento Uniforme

Recentemente, o Fluminense trocou a fornecedora de material esportivo. A Umbro assumiu o lugar antes ocupado pela Under Armour. O lançamento do novo uniforme estava previsto para 22 de março em jogo do Campeonato Carioca, o que se tornou impossível com a paralisação do futebol.

“A gente abriu um debate com a Umbro sobre o lançamento ser agora na paralisação. Muitos torcedores pediram vendas pela internet. Não queremos prejudicar o lojista físico. Definimos tecnicamente e financeiramente como atender a todo mundo.”

O clube encara a empolgação dos torcedores com um novo uniforme como uma arrecadação considerável nesse momento e decidiu pelo lançamento online através do seu canal oficial.

 
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