Futebol Brasileiro

'O time não é da Marinha, é do Flamengo': coordenador do futebol feminino explica sobre projeto

No primeiro capítulo da série sobre as perspectivas do Flamengo Feminino, a reportagem da TNT Sports falou com André Rocha, coordenador da categoria, sobre o projeto

Avatar del

Por Tayna Fiori e Ludmilla Florencio

Flamengo é o atual campeão do Carioca Feminino (Foto: Paula Reis / Flamengo)

Flamengo é o atual campeão do Carioca Feminino (Foto: Paula Reis / Flamengo)

Buscando entender o projeto de futebol feminino que vem sendo estruturado dentro do Flamengo, a reportagem da TNT Sports conversou com exclusividade com o Coordenador André Rocha, que está no cargo desde 2020. 

O time carioca vem realizando grandes contratações no mercado da bola entre 2021 e 2022, assim chamando atenção dos torcedores e fãs do futebol feminino. 

Para começar a conversa, muito se falou sobre as mudanças de valores que o Flamengo estava propondo. As informações que chegavam à reportagem é de que tinham propostas em torno de 100 mil e 80 mil reais, um valor bem alto para o futebol feminino nacional. 

“A princípio esses valores não são verdadeiros. As pessoas precisam justificar às vezes, para torcida, para imprensa, o motivo da saída de uma jogadora ou outra. Aí coloca essa questão do valor, ela joga qualquer valor: ‘está saindo porque vai ganhar 100mil. Está saindo porque vai ganhar 80 mil’. Na verdade, a questão toda é um projeto. A atleta, quando escolhe deixar um clube, ela tem projetos pessoais e projetos esportivos. Então, ninguém deixa um lugar onde você é referência, onde você é feliz e tem estabilidade por motivos nenhum. Esses valores são muito altos, não que as atletas não mereçam, eu acho que elas merecem, elas estão começando a entender a importância, o crescimento a profissionalização do futebol feminino", afirmou. 

Ao contrário de alguns clubes que agregam o futebol feminino pela obrigatoriedade imposta pela Conmebol e pela CBF, o Flamengo trabalha com o projeto de profissionalização das atletas da categoria.

Com essa profissionalização, surge uma nova pauta: o aumento dos contratos. A modalidade ainda possui muitas atletas com contratos de apenas um ano, isso faz com que ela se despeça do clube sem um lucro da venda, saindo de graça. 

"Isso não parte só dos clubes, as atletas precisam entender que há uma profissionalização, existe responsabilidade, contratos que devem ser cumpridos. Precisa entender que existem contratos longos, não só de um ano, contratos de dois anos não é ficar preso no clube, é uma garantia para ambas as partes, é um investimento, acreditar no projeto a longo prazo. À medida que ganhamos segurança, aumentamos o investimento que já está sendo feito. Não estamos fazendo nada no escuro, sem um calendário coeso, sem atletas com responsabilidade, atletas que tenham vida de atleta e a prioridade seja o jogo", afirmou à TNT Sports. 

A parceria entre o Flamengo e a Marinha do Brasil

Desde o ano de 2015, o Flamengo tem uma parceria estruturada com a Marinha, que fez até o clube ficar 'famoso' como Flamengo/Marinha. Essa parceria é uma das grandes pautas que rodam ao redor do time. 

Muitas pessoas falam sobre ela ser positiva ou negativa para o futebol feminino em si, falam sobre o Flamengo não querer assumir o time por completo e até atletas se posicionam sobre. 

A TNT Sports questionou o André Rocha, coordenador do futebol feminino do Flamengo, sobre tal assunto. 

"A parceria na verdade é muito positiva, sempre foi. Não consigo enxergar ela como negativa. É mais uma instituição que apoia o futebol feminino. O que a Marinha investe no futebol feminino, muitos clubes do Rio e do Brasil não fazem. É um programa do governo, está no nosso cronograma. Para quem não sabe, esse programa existe no futebol masculino e em outras modalidades, não é só Marinha. Existe uma confederação de esportes olímpicos militares, na verdade, eles têm esses atletas que, para não ficar parado e ter um nível de competitividade, eles participam das competições. Essas parcerias estão espalhadas no país inteiro", afirmou. 

A instituição Marinha, além de apoiar o futebol feminino do Flamengo, também auxilia em outras áreas, como exemplo da natação e do judô. Antes de 2015, já ocorreram parcerias com outros clubes, o Botafogo-RJ já foi um deles. 

André afirmou que as pessoas não entendem o que acontece nessa relação entre o clube e a Marinha, mas que muitas coisas mudaram nos últimos tempos. Tivemos uma mudança recente de contrato, que aconteceu no começo de 2022 e fez algumas atletas saírem do time rubro-negro. 

"Quando eu falo parceria, é de verdade. Os campos estão dentro da Marinha, mas quem cuida é o Flamengo. Claro que essa parceria vem sofrendo adaptações ao longo dos anos. Já foi de um controle muito grande da Marinha na parte técnica e hoje é do Flamengo completamente, a Marinha não tem relação com planejamento. Estamos trabalhando juntos para uma reformulação do projeto da própria Marinha para conseguirmos caminhar juntos por mais tempo ainda. É muito difícil ter apoio, hoje em dia está melhor. É um absurdo até falar, só quem conhece o futebol feminino não fala isso. A gente entende, a gente respeita, mas queremos manter isso por muito tempo", comentou. 

O acordo é como uma via de mão dupla, segundo o próprio diretor. Tanto a Marinha, como o clube, oferecem a estrutura para suas atletas, isso falando sobre centro de treinamento, departamento médico e academia.

Desde que André assumiu o cargo, em 2020, vêm se instalando essas mudanças graduais entre o clube e a Marinha, para melhorias internas e externas. Isso acontece, principalmente, porque o time criou um novo projeto, para bater mais de frente com os grandes clubes. 

"A gente está muito satisfeito com o que está acontecendo. As pessoas precisam acreditar nisso, que o time não é da Marinha, o time é do Flamengo. Com isso, as pessoas começam a entender como funciona", contou. 

O planejamento dos próximos anos 

Nas mãos do coordenador, o clube vem tendo mudanças desde 2020. Em um primeiro momento, foi pensada e organizada a realização de um investimento interno. 

Tudo começou com grandes melhorias na infraestrutura e no staff do futebol feminino do Flamengo: "Temos uma das melhores estruturas de treinamentos do Brasil, dificilmente alguma equipe feminina tem bons campos com a qualidade que temos". 

O ano de 2021 foi um misto das duas coisas, o clube começou a buscar patrocínios e fontes de investimento para a modalidade. Foi idealizado que isso começasse no início do ano, o que foi conquistado. 

Enquanto a temporada já estava acontecendo, o clube foi atrás de um investimento maior em algumas atletas e em profissionais para dentro dos gramados, nisso veio a contratação da Darlene, que estava no Benfica, e o retorno da Rayanne, que estava no Braga. 

"Quando a gente tem contratações, como repatriar algumas meninas da Europa e depois conseguimos trazer um treinador que mudasse o cenário do futebol feminino, a gente quer que as pessoas entendam que o futebol feminino tem que ser muito sério. Queremos implementar na categoria alguns modelos de treinamento, algumas ações de profissionalismo que na Europa têm mais do que aqui no Brasil", comentou.

No ano de 2021, o Flamengo não conseguiu a classificação para as oitavas do Campeonato Brasileiro Feminino A1, porém brigou bastante pela vaga e, mais tarde, se consagrou campeão do Carioca Feminino. 

A partir do momento que a classificação não veio, o calendário do clube teve uma redução e isso entra no planejamento do ano de 2022. 

"Para esse ano, claro que vamos entrar para buscar os títulos, vamos entrar para ganhar todos os jogos, mas temos um objetivo estratégico para começar a aumentar nosso calendário, estamos buscando uma disputa de Libertadores para o ano seguinte', completou. 

Em busca de conseguir realizar tal feito, o Flamengo realizou contratações de nomes consolidados do futebol feminino e promessas com algum reconhecimento, como exemplo da Maria Alves, ex-Palmeiras e com passagens pela Seleção, e a Cris, ex-São Paulo e com passagens pela seleção brasileira sub20. 

Além disso, o clube contratou o Luis Andrade para o comando técnico, ex-treinador do Benfica Feminino. 

"Quando resolvemos trazer um treinador de fora, investimos no profissionalismo, queremos alguém que as jogadoras entendam que saiu da sua casa porque quer aquilo. A partir disso, começamos a entender o perfil que o Flamengo quer para sua equipe", falou André.

Completando o objetivo de 2020 e tendo um elenco competitivo, André afirmou que o pensamento para 2023 é ainda maior. O clube quer chegar longe e está investindo para isso. 

"Para 2023, queremos ter um dos melhores elencos do país, se não o melhor elenco. O objetivo de 2022 é aumentar o calendário esportivo, o nosso grande objetivo de 2023 é ganhar tudo, queremos estar no Brasileiro, Libertadores, Mundial de Clubes, caso se confirme", finalizou.

O Flamengo vai começar seu 2022 com a disputa da Supercopa, no dia 06 de fevereiro, contra o ESMAC (representante do Pará). Essa matéria é a primeira de uma série sobre o clube e seu projeto. 

Comentários