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EXCLUSIVO: Bayern paraguaio? Arce faz história como treinador do Cerro Porteño e projeta futuro no Brasil: "Está perto"

Arce conversou com o Esporte Interativo após embalar 10 vitórias consecutivas na retomada do futebol paraguaio

Por Rodrigo Fragoso

Arce acumula 10 vitórias em 10 jogos após a retomada do futebol paraguaio(Divulgação/Cerro Porteño)

Arce acumula 10 vitórias em 10 jogos após a retomada do futebol paraguaio | Divulgação/Cerro Porteño

Nem o mais otimista torcedor do Cerro Porteño sonhava com os resultados do time na retomada do futebol paraguaio. Nem mesmo o técnico Chiqui Arce. Quando o Apertura 2020 foi paralisado, o Cerro Porteño acumulava seis partidas sem vitórias e estava sete pontos atrás do líder Libertad. A bola voltou a rolar e algumas modificações na equipe, principalmente envolvendo as categorias de base, fizeram a equipe embalar dez vitórias consecutivas, ganhando o apelido de 'Bayern paraguaio' de alguns fanáticos, e liderar com folga a competição em sua reta final.

Ainda que Arce já acumule um título da segunda divisão com o Rubio Ñu e dois títulos da primeira divisão com Olimpia e o com o próprio Cerro Porteño, as dez vitórias consecutivas no futebol paraguaio são um recorde na história do clube que Chiqui Arce tem orgulho de protagonizar. Restando quatro partidas para o fim do Apertura 2020, o Ciclón tem seis pontos de vantagem para o Libertad e sete pontos para o Olimpia, atual tetracampeão paraguaio. A expectativa de encerrar uma hegemonia é grande e o técnico, ídolo de Grêmio e Palmeiras como jogador no Brasil, falou com exclusividade ao Esporte Interativo sobre essa reviravolta histórica na competição.

Divulgação/Cerro Porteño
Comandando o Cerro Porteño, Arce busca quebrar uma hegemonia de quatro conquistas consecutivas do rival Olimpia

Por uma hora, Chiqui Arce explicou o que fez o Cerro Porteño alcançar esses resultados na volta do futebol, explicou como desenha seu time em campo, afirmou gostar de um time propositivo, com posse de bola, além de explicar como funciona o 'jogo à brasileira' aplicado no Cerro Porteño. Com a abertura ainda maior para a chegada de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro, Arce revelou que sua chegada ao Brasil, onde fez muito sucesso como jogador, está próxima de acontecer. Confira tudo isso e muito mais nesse papo exclusivo com o Esporte Interativo:

Esporte Interativo: Depois da retomada do futebol no Paraguai, o Cerro Porteño alcançou dez vitórias em dez jogos! Alguns veículos e jornalistas chegaram a brincar dizendo que o Cerro é o Bayern de Munique paraguaio. Justa a comparação?


Chiqui Arce: "É um exagero (risos), mas não tem como negar que o time voltou com força máxima. Voltamos bem na vitória por 2 a 1 soobre o Libertad, que era o líder e estava sete pontos na nossa frente. Hoje nós estamos seis pontos na frente. É histórico. O time está ótimo e bem entrosado. Depois da parada do campeonato, começou a jogar um futebol mais estável, regular e o elenco ficou mais homogêneo. Houve algumas mudanças, colocamos alguns garotos, já que temos dois times, um principal e o outro alternativo, porque o protocolo não permite juntar mais de 30 atletas num grupo só. Nós levamos para o time principal vários jogadores da base, desse time alternativo, e a equipe ficou mais rápida, mais leve e mais dinâmica".


EI: Antes da paralisação do futebol eram seis jogos sem vencer com o Cerro Porteño. O site 'D10' chegou a escrever que havia mais dúvidas do que certezas no estilo de jogo da equipe naquele momento. Você também tinha essa sensação?


CA: "O time oscilava muito, parecia que estava numa montanha russa. Fizemos jogos de muita qualidade e, de uma hora pra outra, caía muito. Era um time formado por jogadores que há muito tempo estavam no clube e já com uma idade mais avançada. Com a chegada de alguns jogadores com média de idade menor, hoje nosso time tem média de 25, 26 anos e está muito melhor preparado fisicamente".


EI: Quanto tempo de treinamento você teve para fazer a equipe alcançar esses resultados? 

 

EI: Em algum momento você imaginou, logo depois da retomada do futebol, quebrar esse recorde histórico de vitórias?

CA: "Nós confiávamos que melhoraríamos, mas não vou mentir. Se eu falasse que ganharíamos todos os jogos disputados até agora? Não. Imaginávamos dar regularidade, porque já tínhamos detectado as dificuldades que o time tinha antes da parada. Confiávamos que chegaríamos nessa altura do campeonato perto dos líderes, com possibilidade de alcançar ou passar o Olimpia, que nos últimos anos tem mantido um estilo de jogo, conquistou quatro campeonatos consecutivos mantendo a mesma comissão técnica e tendo jogadores de muita qualidade".


EI: O Olimpia foi campeão do Clausura 2019 marcando 53 gols e sofrendo 15. No Apertura 2019, marcou 61 gols e sofreu 17. No Clausura 2018, marcou 48 gols e levou 20. No Apertura 2018, 52 gols a favor e 22 contra. Nessa temporada, faltando quatro rodadas para o fim do torneio, você acumula 32 gols marcados e 12 gols sofridos. Quais as semelhanças e diferenças com o trabalho de Daniel Garnero no Olimpia?

 

EI: Você falou que o Cerro é um time que joga mais 'à brasileira'. O que seria isso? 


CA: "Toca e sai, triangula, joga curto, não perde a posse da bola e faz um jogo ligeiro que flui fácil. Aqui, historicamente, alguns treinadores têm esse estilo, como Manuel Freitas Solich que dirigiu o Flamengo. Há também a influência de Paulo Cesar Carpegiani, Valdir Espinoza e outros grandes treinadores que passaram por aqui. Diferente do Olimpia, que sempre foi dirigido ou contratou jogadores uruguaios, então era de uma escola diferente que agora está mudando. Nós fomos dirigir o Olimpia em 2015, quando conquistamos o título, com a aposta de um jogo mais rápido, com bola no chão, e desde aquela época eles estão mantendo o mesmo estilo, como agora com o Garnero, que trabalha uma ideia de jogo leve e rápido".


EI: Em 18 jogos disputados até aqui no Apertura, o Cerro Porteño teve mais posse de bola do que o adversário em 13 deles. A média é de 56%. Qual estilo de jogo você conseguiu implantar nesse Cerro Porteño? Você diria que seu time é propositivo?


CA: "Sim, o objetivo é procurar sempre o gol adversário. Em algum momento fomos um pouco criticados por estarmos tentando mudar o jeito de jogar, mas a ideia era acoplar o que se fala do DNA nato do paraguaio, que tem força, garra e temperamento à tendência da posse da bola. Agora tem dado certo. Mas a gente está indo jogar em todos os campos e nem todos são de alta qualidade como no Brasil, na Argentina ou na Europa. Poucos aqui tem padrão de qualidade pra jogar torneios internacionais, por exemplo. Se você olhar as estatísticas, essa diferença de posse de bola menor vai aparecer mais nos campos de menor qualidade por ser mais difícil colocar a bola no chão".


EI: Qual a importância da bola aérea no jogo? O Cerro Porteño levou sete gols com a bola rolando, outros dois de pênalti e apenas dois de cabeça. No ataque, dos 32 gols marcados, quase metade saíram de bolas aéreas (13), sendo 10 deles de cabeça.


CA: "A maioria desses gols de cabeça devem ter acontecido com times tentando fazer superioridade para chegar a linha de fundo ou também com passe para trás e cruzamento bem dado. Defensivamente temos melhorado muito. Mudamos o formato da marcação a pedido dos jogadores, nem tanto pelo gosto treinador e da comissão, mas fomos aceitando, conhecendo as qualidades de cada um, houve um pedido do goleiro para sentir mais segurança e tem funcionado. Ofensivamente, o que temos trabalhado muito é, quando os times não cedem espaço, termos paciência, forçar a bola em cima dos beques centrais ou tentar virar a bola rápido e acelerar a jogada por fora pra buscar um confronto no mano a mano. A maioria dos gols foi dessa maneira. Em outros momentos, alguns times propõem jogo igual ao nosso, saindo com a bola no chão. Eles acabam fazendo pressão alta e temos tido felicidade em alguns jogos, especialmente no nosso campo, que é muito bom, conseguindo quebrar a primeira linha de pressão e chegando ao ataque com muita gente".


EI: Em qual esquema você diria que o Cerro Porteño joga?


CA: "Eu não gosto de esquemas, mas se for pra tentar falar de números, nessa parada, por exemplo, treinamos muito pra jogar no que seria chamado de 3-3-1-3, mas não conseguimos nos adaptar. Jogamos três amistosos e não gostamos. Hoje o time fica maléável para fazer pressão com um meia armador e um segundo ponta pra fazer pressão individual, tentando obrigar os adversários a jogar com a bola longa. Com o o fluir do jogo, nosso esquema parece um 4-2-3-1 com dois volantes que tem liberdade, cada um pelo seu lado, para ajudar fazer superioridade, juntar aos homens de frente, infiltrar e virar bolas de lado".


EI: Você foi jogador de Luiz Felipe Scolari no Grêmio e no Palmeiras. Aprendeu e ganhou muito com o treinador. O que seu trabalho no banco de reservas tem do chamado 'Scolarismo'?

 


EI: Seu Cerro Porteño tem um padrão definido para jogar dentro e fora de casa e os adversários que se preocupem em se ajustar para marcá-lo ou você procura mexer no seu time de acordo com o adversário para anular suas melhores características?


CA: "Com a gente aconteceu uma situação distinta por conta da sequência de vitórias. Chegou um momento em que os adversários que estão se adaptando para tentar complicar a gente, mas nosso trabalho também é feito de acordo com o adversário, sempre sem tirar os jogadores de onde se sentem à vontade, com algumas funções específicas de acordo com o rival, mas sem sem sair da nossa identidade. Por exemplo, teve alguns jogos nos quais, pelo campo ou pelo adversário esperar muito, nós decidimos sair com a bola longa para começar a jogar mais perto do gol do adversário. Ao recuperar a bola, o objetivo é usar o nosso estilo. A gente aceita pouco demorar muito com a bola, temos setores onde mecanizamos bem movimentos para, mais a frente, os jogadores fazerem a diferença".


EI: Quanto tempo um técnico precisa para implantar um trabalho ser avaliado se encaixou ou não?


CA: "Acho que para detectar tudo que está acontecendo ou algumas das situações mais importantes que podem fazer a diferença, de dois a três meses é suficiente. Se conseguir achar rápido as soluções, dá para fluir um trabalho. Está muito difícil ter certeza de que você vai ficar um semestre em qualquer equipe da América do Sul".


EI: No Paraguai, o técnico Daniel Garnero conquistou quatro títulos nacionais consecutivos pelo Olimpia e agora, na terceira colocação da competição, muitos torcedores do Decano já pedem a sua saída, falam em fim de ciclo. Você acha justa a avaliação?


CA: "Eu acho um absurdo. Eu gosto da proposta dele, até gosto do jeito dele de ser. Conversava muito com ele quando eu dirigia a Seleção e precisava tratar algumas questões com ele e com outros treinadores. De seis torneios que disputou aqui no Paraguai, creio que ganhou cinco (quatro com o Olimpia e um com o Guaraní). Todo mundo sabe como o time dele joga e quase ninguém consegue ganhar deles. Se olhar as estatísticas, O Olimpia do Daniel deve ter perdido oito ou nove jogos em dois anos e meio. Mas, como eu digo, nas redes sociais alguém começa a colocar um pedido de saída, aí outro vai embaixo e já cresce. As pessoas que entendem de futebol sabem que ele está fazendo um bom trabalho".


EI: No Brasil, vários times da Série A já mandaram treinadores embora após a retomada do futebol. Vanderlei Luxemburgo foi campeão paulista, acumula 12 jogos de invencibilidade, mas grande parte da torcida critica o desempenho do time em campo. O treinador já sofre pressão no Palmeiras. Você tem visto o trabalho dele no Palmeiras? O que conhece do Vanderlei Luxemburgo?


CA: "Vi dois ou três jogos, assisti a final do Paulistão e algum outro clássico recente. Acompanho também essa impaciência da torcida que conheço muito bem como funciona e vejo que não tem mudado muito (risos). Acho ele um mestre dos que continuam em atividade. Apesar de ter me dirigido pouco tempo, deu para perceber que é parecido com Carpegiani o jeito de enxergar jogo, de fazer mudanças, olhar o que está acontecendo em campo e o treino é muito parecido também. Eu desejo o melhor para ele. Está num lugar onde ele gosta, é respeitado, mas mais do que ninguém sabe como funcionam as coisas".


EI: O Palmeiras já tentou contratá-lo para ser treinador do clube?

 

EI: Quando você pretende treinar um time brasileiro?

CA: "Eu tenho isso em mente. Claro que tenho muitos amigos que trabalham no futebol brasileiro como gerentes ou dirigentes. Tenho contato diariamente, porque temos nossos grupos de Whatsapp e eles falam sobre isso: 'gringo, vem pra cá! Seus filhos estão grandes, você já virou avô. Já não tem mais desculpa de se preparar com tantos anos como treinador'. Eu acho que está perto. Temos mais um ano e pouco de trabalho aqui no Cerro Porteño e tomara que se complete. Eles estão tentando projetar um trabalho de longo prazo, algo que nunca foi feito aqui e esperamos que se concretize. É capaz que depois desse fim de trabalho já seja o momento de voltar ao Brasil. A minha esposa esses dias falou: 'você está perdendo o português, não pode', então dá tempo de voltar a dar fluidez pra isso ainda".


EI: Por que não temos mais batedores de faltas no número que tínhamos antes? Há quem diga que a intensidade dos treinamentos atuais não permitem que o atleta tire um tempo para focar apenas nos treinamentos de faltas. Isso é verdade?


CA: "Eu acho que isso é mentira. Na nossa época jogávamos mais seguidamente e descansávamos menos. Agora tem padronização de descanso, intervalo de jogos precisa ser respeitado. Em algumas situações, é falta de vontade de treinar, de ficar mais uma hora treinando, até mesmo duas horas treinando sozinho. Eu tinha momentos que treinava sozinho, sem goleiro, só para poder aperfeiçoar. E também é preciso de inteligência emocional, porque a exigência é muito grande para um grande batedor de time de qualidade. Você precisa acertar praticamente tudo. De três faltas, uma tem que arrancar o 'uhhh' da torcida, a outra tem que ir na trave e a terceira tem que entrar no gol".

EI: Palmeiras tem colocado muitos garotos da base no time principal para essa temporada. O que é preciso entender para cair nas graças da torcida do Palmeiras, já que você se tornou um ídolo do clube?

CA: "Precisa entender a turma do amendoim de um lado e a Mancha Verde do outro lado (risos). Não ter medo de fazer tudo com naturalidade. Era isso que acontecia comigo. Eu me preparava muito, era muito exigente comigo mesmo, tinha que acertar. Me lembro uma vez, nós jogávamos muitas partidas seguidas com viagens e sem descanso, e fui para uma quarta seguida contra o Botafogo no Parque Antarctica. Eu errei tudo! Cruzamento, passe, chute, tudo. Teve jornalista que até escreveu que alguma coisa estava acontecendo comigo, mas era de tanto jogo, tanto esforço, tanta viagem. Hoje tem uma exigência muito forte em cima dos caras que jogam pelos lados de campo, porque você tem que ter habilidade que o Junior tinha ou o arremante do Roberto Carlos ou a força que o Cafu tinha pra chegar na hora que quisesse na linha de fundo, ou o cruzamento perfeito do Jorginho de qualquer lugar ou a habilidade do Leandro pra passar por dois ou três e deixar alguém na cara do gol. Jogador meio-termo não vira".


EI: Gustavo Gómez é um dos jogadores mais festejados pela torcida do Palmeiras. O que você pode falar sobre seu compatriota?

CA: "Ele encaixou perfeitamente. Era o que o time precisava e ele já tem certa experiência, tem muita força, muita garra, concentrado e sem limite para ultrapassar. Ele vai com tudo. Tira a força de onde não tem. O torcedor do Palmeiras gosta disso, os times do Brasil sempre gostaram dos xerifes e o Gustavo tem isso á flor da pele. Hoje já tem conquistado seu espaço, até já tenho visto que já virou uma braçadeira de capitão em alguns jogos".

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