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Felipe Gabriel: o brasileiro que é jogador de futebol, futsal, cantor e ator na Letônia

Um dos raríssimos negros na Letônia, o ex-jogador de Matonense e Cotia também fala sobre o forte racismo na Europa e sobre sua história tão única

Por Gabriel Menezes

Felipe Gabriel atuando pelo SC Albatroz, da terceira divisão letã(Arquivo pessoal)

Felipe Gabriel atuando pelo SC Albatroz, da terceira divisão letã | Arquivo pessoal

As grandes estrelas do futebol raramente têm outra profissão, mesmo depois de se aposentar. Quando se trata de jogadores de clubes menores, a realidade é completamente diferente. Para sobreviver, muitos jogadores de divisões inferiores precisam de um trabalho "comum". Mas há quem se destaque em outros meios que também trazem fama, como Felipe Gabriel, jogador brasileiro que vive na Letônia.

Conhecido no Brasil como "Garça", o jogador hoje é uma celebridade tanto na Letônia quanto na Lituânia, países vizinhos da região báltica. E não foi por conta do futebol. Apesar de ter ido para a Letônia para jogar bola, Felipe Gabriel se destacou mais como cantor e ator.

Em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, ele conta como foi sua decisão de ir jogar na Letônia e como foram seus primeiros passos no Velho Continente. Além disso, fala sobre a carreira como cantor e a aventura no cinema lituano e se posiciona firmemente contra o racismo, escancarando o problema da questão racial na Europa.

Carreira no Brasil nem chegou ao profissional e ida para Letônia foi motivada por estudos

Felipe conta que, na escolinha Pequeninos do Jockey - que também foi lar de nomes como Zé Roberto e Júlio Baptista - disputou campeonatos na Europa e chegou a ser sondado por olheiros após se destacar em partida contra o time B do Arsenal. No entanto, não recebeu propostas e passou a jogar na base do Cotia, disputando seu primeiro Campeonato Paulista sub-20 em 2013.

Em 2014, jogou o Paulista sub-20 pela Matonense. E foi nesse ano que sua vida começou a mudar. Um amigo, que vivia na Letônia e fazia parte de um projeto de brasileiros por lá, o convidou. Felipe Gabriel decidiu ir e começou uma jornada que, no início, foi bastante complicada.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

"O senhor é meu pastor e nada me faltará " #SoccerPlayer #Blessed #Brazilian

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(Felipe Gabriel em 2014, pela Matonense)

"Eu não tava feliz e um amigo tava jogando aqui na Letônia e me chamou. Fiquei meio assim de ir, porque não sabia nem o que era a Letônia. Ele me chamou em abril, em maio um dos meus melhores amigos que jogavam futebol morreu e isso me deixou muito triste, sem motivação de ficar no Brasil.

Daí fui para esse projeto na Letônia. Acabei ficando só um mês e recebi uma proposta de ir para a Espanha. Só que tive um problema com meu visto, ia acabar ficando ilegal e decidi voltar para o Brasil. Fiquei dois meses lá."

O brasileiro aponta que, apesar de ter voltado ao Brasil, recebeu o contato do AFA Olaine, equipe letã que havia observado seu futebol durante uma série de amistosos que realizou no mês que passou no país. "Pressionado" pelos pais a aceitar a proposta por conta da oferta da oportunidade de fazer uma faculdade, Felipe rumou novamente à Letônia.

"Me deram a possibilidade de voltar por um ano e, se quisesse, poderia estudar, porque eles tinham uma parceria com uma faculdade. Meus pais davam muita importância para educação, então me disseram 'você vai estudar sim'. E aí, vim para jogar e acabei fazendo a faculdade também. Comecei mais fazendo para aprender o inglês, o letão e o russo [três línguas faladas no país, apesar da oficial ser o letão]."

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

����❤️

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(E em 2019, jogando pelo SC Albatroz)

Plano era ficar pouco tempo na Letônia, mas clipe lançado "de brincadeira" mudou tudo

Segundo Felipe Gabriel, seu pensamento era totalmente focado no futebol. A estratégia era ir para a Letônia, permanecer pouco tempo por lá, e conseguir fazer uma "ponte" para jogar na Rússia ou em outro país europeu, por exemplo. Mas a música mudou muita coisa. E quase que por acidente.

"No meu primeiro ano, conheci um pessoal da música e acabei escrevendo uma música como brincadeira. Eu sempre gostei de rimar, então fiz essa música e fizemos um clipe. Eu tinha voltado para o Brasil e nem sabia se voltaria para a Letônia."

Mas quando lancei essa música, ela bombou e bateu mais de um milhão de acessos no Youtube, passou em TV, rádios. Acordei com um monte de notificação no celular no dia em que lançaram. E fui o primeiro negro que escreveu uma música em letão. Foi uma coisa enorme pro país.

Nesse ponto, o jogador afirma que teve uma conversa com sua equipe, onde garantiram que ele teria espaço para seguir jogando. Dessa forma, retornou para a Letônia. E aí, colheu os "frutos" do sucesso como cantor.

Aí, na primeira semana, todo lugar que eu ia pediam pra tirar foto. E não quis voltar pro Brasil. A razão pela qual fiquei mesmo foi por causa da fama e do respeito que adquiri aqui."

Para além da música, Felipe Gabriel se tornou ator. E protagonista de filme na Lituânia

Sem largar de vez o esporte, Felipe conta que nunca se imaginou fazendo qualquer outra coisa a não ser jogar futebol. E que a guinada para a carreira artística foi uma grande surpresa.

"Desde moleque, eu sempre pensei só em futebol. Sempre gostei de rap, de música, sempre fui em shows. Sempre gostei muito de improvisar, fazer rima. Mas nunca imaginei fazer música mesmo, fazer vídeo. Nunca imaginei atuando na tela do cinema, nem nos meus maiores sonhos."

Às vezes, eu ficava muito triste porque jogava e não conseguia uma coisa melhor no Brasil. Ficava triste porque me dedicava muito mesmo. E às vezes o caminho é outro. Então tudo isso foi acontecendo e eu ia me adaptando. Mas, quando faço algo, dou meu 100%."

O caminho o levou para atuar no cinema da Lituânia, país vizinho. Felipe Gabriel conta que precisou aprender a língua local em um mês, além de ter de aprender a atuar. E tudo porque, segundo o próprio, a agência responsável por compor o elenco do filme não encontrava negros que falassem lituano.

A comédia romântica "Importinis Jaunikis" tem o racismo como tema central da trama. Felipe atua como o noivo da filha de um empresário local que é ultra-conservador e tenta, de diversas maneiras, impedir o casamento. A película estreou no dia 31 de janeiro e, até agora, rendeu 782 mil dólares (R$ 4,1 milhões).

Felipe Gabriel posa com um outdoor do filme (Foto: Arquivo pessoal)

Um dos poucos negros em um país de brancos: a relação de Felipe Gabriel com o racismo europeu

Em todos os anos que passou na Europa, Felipe Gabriel pode até ter conquistado fama e popularidade dentro da Letônia e da Lituânia. Mas também conviveu, durante todo esse tempo, com o racismo. Na Espanha, o relato mais pesado.

"Na Espanha, eu sofri muito racismo. Quando fui, o ebola tava em evidência, então estavam com um preconceito enorme com africanos. E olhavam para mim e pensavam que eu era africano, então me evitavam muito. É o que tá acontecendo com os chineses agora, por exemplo. E provavelmente vai acontecer com os brasileiros, porque somos a maior ameaça do mundo agora [em relação ao novo coronavírus]".

Quando questionado sobre não se ver refletido no restante da população letã (não há dados sobre a quantidade de negros que vivem no país), Felipe Gabriel foi contundente: não é tão diferente do que acontece em certos cenários no Brasil.

"O racismo no Brasil é muito grande, né? Pra mim, dos países em que vivi, é onde é mais gritante. Na minha infância, eu estudei em escola particular, mas não morava em 'bairro bom'. Então, pro pessoal da escola, eu era o favelado. Pro pessoal de onde eu morava, eu era o 'playboy'."

Mas eu passava mais tempo com o pessoal da minha escola. E sempre fui o único negro da sala, do grupo de amigos. Muitas vezes, em baladas, bares, até em shows de rap, eu era o único negro dos lugares que eu frequentava no Brasil. Então minha mente tá meio blindada quanto a isso."

Outro ponto fundamental da opinião do jogador sobre o racismo é o fato de que, segundo ele, boa parte da Europa não faz ideia de quem foram alguns heróis da luta por igualdade racial, como Martin Luther King e Malcom X.

"Aqui na Europa, as pessoas não aprendem nada na escola. Nada sobre a escravidão, sobre heróis negros. Não sabem nada sobre Malcom X, Martin Luther King, Nelson Mandela. Se eu mostrar a foto aqui na Letônia, o pessoal não conhece."

Ainda sobre racismo: dois jovens negros morreram durante a entrevista

Em meio à conversa sobre racismo e as manifestações antirracistas e contra a violência policial que irromperam nos Estados Unidos e também no Brasil - especialmente após o assassinato do menino João Pedro - Felipe foi firme. E citou que, somente durante a conversa, dois jovens negros morreram no Brasil. Isso segundo uma estatística divulgada em 2017 pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

"Isso acontece todos os dias. Acho que esse [assassinato de George Floyd] foi um dos primeiros casos que foi filmado. E no Brasil, quanta gente não é morta? Em 2017, uma reportagem falou que a cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil. Isso é gritante. A gente tá conversando há 45 minutos. Dois jovens negros morreram no Brasil. E isso é muito sério. Pode ser eu, minha família, meus amigos, a qualquer momento."

 
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O brasileiro continua e afirma que o racismo é um problema com o qual "precisamos acabar". Segundo ele, é por causa do preconceito que tanta gente acaba morrendo e muitos inocentes são presos. E crava:

E acho que esse movimento é um pontapé inicial para uma revolução, para o pessoal abrir os olhos. Não é só o George Floyd. É muita gente no mundo morrendo, muitos negros sendo injustiçados. O racismo existe sim. Não é modinha agora."

Planos para o futuro: jogar pela seleção letã de futsal e seguir carreira artística no Brasil

Por fim, Felipe Gabriel afirma que está trabalhando para trocar - ao menos momentaneamente - os gramados pelas quadras. Ele afirma que pretende voltar a jogar futebol de campo, mas está focado em também se aprimorar no futsal para ter a chance de jogar pela seleção da Letônia. Além disso, destaca também a vontade de conseguir espaço no mercado artístico dentro do Brasil.

"Agora quero fazer mais música, quero muito abrir oportunidades no Brasil, pra fazer música ou filmes. Tô fazendo uma música em português, espero que gostem. Eu gosto muito do Brasil. Já viajei pra muitos lugares, mas o Brasil e o povo brasileiro são os que mais gosto."

 
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