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Dia Mundial da Saúde: debate sobre psicologia no esporte serve para desconstruir tabus

“Ainda há muito a ser aprendido, mas estamos conseguindo ‘quebrar’ certas barreiras”, afirma Liana Benício, psicóloga do Fortaleza

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Por Redação da TNT Sports

Dia Mundial da Saúde: debate sobre psicologia no esporte serve para desconstruir tabus(Reprodução/Instagram)

Dia Mundial da Saúde: debate sobre psicologia no esporte serve para desconstruir tabus | Reprodução/Instagram

O Dia Mundial da Saúde é comemorado nesta quinta-feira (7) e a data é um marco importante para discutir sobre o bem-estar da população. Segundo dados recentes da OMS, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida a cada ano. A importância do cuidado com a mente é algo que vem sendo debatido nos últimos anos, e, no esporte, esse tabu também parece em desconstrução. 

Recentemente, o surfista Gabriel Medina, tricampeão do mundo, abriu mão de participar da primeira etapa da Liga Mundial de Surfe e justificou a decisão ao afirmar que a prioridade naquele momento era o seu bem-estar mental. Na época, o brasileiro publicou um texto no Instagram sobre a decisão de não participar da competição e, em um dos trechos, explicou: “Somado corpo, tenho questões emocionais que estou precisando lidar”. 

Este é mais um episódio que ilustra a importância do cuidado com a saúde mental dos atletas de alto rendimento. No ano passado, alguns casos reacenderam também o debate. Nos Jogos Olímpicos, Simone Biles, maior ginasta da história, decidiu se afastar de quatro finais em Tóquio por conta de problemas emocionais. A desistência da profissional foi um marco e serviu para desconstruir certos preconceitos: de que também é necessário discutir assuntos mais sérios no esporte, como depressão e ansiedade.

Após toda repercussão da decisão da ginasta norte-americana, a Fifa, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS), lançou uma campanha para estimular os jogadores de futebol, principalmente os que estão nas categorias de base, a procurar ajuda quando necessário. 

De acordo com a entidade, metade dos problemas de saúde mental, considerando a população em geral, aparece perto dos 14 anos. O estudo só reforça a importância das entidades esportivas investirem em equipes preparadas para lidar com o emocional dos atletas, sobretudo os mais novos. 

“Muitas vezes ficamos presos somente à questão do “hoje”, da pressão midiática e da torcida, mas o jogador tem inúmeros outros problemas, como pressões familiares e comportamentais que, muitas vezes, sequer chegam ao público. Isso pode ser um agente catalisador para que os problemas se potencializem e sejam traduzidos dentro de campo, em dificuldades técnicas, que resultarão em mais cobranças ainda”, explica Chávare, executivo de futebol, com passagem por Bahia, Atlético-MG, São Paulo, Grêmio e Juventus, que reforça a importância do dirigente ter um contato mais próximo com o jogador para compreender o que o mesmo está passando. 

O atacante Michael, do Flamengo, revelou ter sofrido com depressão e pensamentos suicidas em 2020 devido a pressão por parte de torcedores rubro-negros. Depois de receber todo o apoio de companheiros de equipe e staff do clube, o jogador se recuperou, teve uma das melhores temporadas da carreira no ano passado e alcançou a marca de 14 gols no Campeonato Brasileiro. 

Na visão do atleta Rômulo Caldeira, de 34 anos, uma das principais lideranças do Cruzeiro, essa conscientização a respeito da importância de discutir e zelar pela saúde mental dos jogadores é fundamental. “Estamos habituados a lidar com situações de pressão desde as categorias de base, por isso o suporte e o apoio emocional são tão necessários. No atual contexto em que vivemos, o cuidado precisa ser ainda maior para que uma crítica ou ofensa não atrapalhe a nossa mente e afete o desempenho dentro de campo. O atleta também precisa ser visto como ser humano, que acerta e erra, e não podemos permitir que um xingamento defina a visão que temos de nós mesmos”, declara.

O tabu sobre discutir assuntos mais delicados, como depressão e ansiedade no esporte, parece em desconstrução nos últimos anos. Liana Benício, psicóloga do Fortaleza, acredita que o cuidado com o bem-estar dos atletas seja uma tendência. “Assim como ocorre no Leão, é importante a preocupação de outros clubes do Brasil e do exterior, para que os departamentos de psicologia no futebol estejam cada vez mais desenvolvidos”, conclui.

A psicóloga esportiva ainda acrescenta que o futebol é uma das modalidades esportivas em que o preconceito e resistência quando o assunto é psicologia fica mais aparente, mas que, lentamente, esta ideia está sendo desconstruída. “Entendo que isso tem a ver com o desenvolvimento cultural, porém é apenas questão de tempo. Estamos conseguindo quebrar muitas barreiras”. 

O psicólogo do Botafogo, Paulo Ribeiro, de experiência com grupos e atletas de alto rendimento, doutorando em Psicologia pela UERJ e Docente na Universidade Veiga de Almeida, orienta quando um atleta pode identificar que uma frustração por uma derrota, que é algo normal a qualquer pessoa, está passando de um limite aceitável, que deveria ser tratado com mais cuidado. 

“Por exemplo, um atleta que perca um pênalti numa decisão de campeonato, ele se sente culpado inicialmente, mas os colegas o apoiam para que não carregue a culpa dentro dele. Se mesmo assim isso não amenizar o sofrimento e ainda durar cerca de duas ou três semanas, já é um sinal de alerta que tem algo a mais que precisa ser visto e trabalhado. Esse luto, que tem algumas fases, acontece no jogador, mas ele tem rapidamente uma outra oportunidade de melhorar, porque o esporte te proporciona isso. É preciso reconhecer que quase ninguém consegue performar com 100% de aproveitamento o tempo inteiro. Isso é praticamente impossível”, completa o psicólogo. 

Claudio Godoi, especialista em Psicologia Esportiva para Esportes Eletrônicos e em ansiedade pela Faculdade de Medicina da USP, que atua na Team Liquid, uma das principais equipes de Rainbow Six do país, reforça a importância da população buscar a conscientização sobre este assunto. “A ansiedade em si, diferente do que muitos pensam, não é uma doença, mas sim uma reação comum. É um fator natural do ser humano, que, inclusive, precisamos, porque dispara os alertas para estarmos focados em alguma atividade. O que não podemos é deixar virar um problema, pois ela se acumula como uma bola de neve e, aí sim, acaba se transformando em um transtorno para a sua vida”, explica.

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